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quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Cartas das trincheiras

Um volume publicado por ocasião do centenário da Primeira Guerra Mundial reproduz eloquentes testemunhos de intervenções de Santa Teresinha em favor de soldados que a ela recorreram.
No dilúvio de fogo e ferro que assolou a Europa entre os anos 1914 e 1918 não faltaram comovedores episódios de Fé. E entre eles cabe mencionar a inesperada torrente de veneração dos poilus1 para com uma humilde freira falecida em odor de santidade em 1897: Sor Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face.
O mosteiro carmelitano de Lisieux, onde ela fez o holocausto de sua vida ao amor misericordioso de Deus, possui mais de dois mil dossiês contendo cartas autógrafas recebidas no decorrer do conflito, bem como condecorações, medalhas, balas, capacetes e obuses transformados em ex-votos.
Comemorando o primeiro centenário da deflagração dessa guerra, uma prestigiosa editora francesa lançou, em colaboração com o mosteiro, um volume de 203 páginas2 contendo uma seleção de 75 dessas cartas, muito pouco conhecidas. Reproduzimos abaixo algumas delas.
Parti sem me confessar
Sou um favorecido por Teresinha do Menino Jesus e deposito nela grande confiança. Visitei seu túmulo em maio de 1914 e voltei muito impressionado. Entretanto, tendo sido declarada a guerra, recusei-me a atender aos instantes pedidos de minha mulher e parti sem me confessar. O respeito humano impediu-me de cumprir meu dever de católico.
Estava afastado da Igreja desde minha Primeira Comunhão. Todavia, aceitei uma relíquia e uma pequena imagem da Irmãzinha, e recorria instintivamente a ela cada vez que me encontrava em perigo nos combates. E ela me protegia, e também aos meus camaradas, pois nunca vi nenhum deles morto ou ferido perto de mim.
Em meados de setembro, estávamos nas trincheiras do Gotha, perto de Reims, numa situação difícil, pois a artilharia não cessava de troar. Pensando com muita tristeza em minha pequena família, eu rezava: “Minha Irmã Teresa, eu vos suplico, devolvei-me à minha esposa e aos meus filhos, e prometo ir visitar vosso túmulo logo depois de retornar a minha terra”.
Mal terminara essa oração, vi abrir-se uma nuvem e aparecer no céu azul o rosto da santa. Julgava-me vítima de uma alucinação. Esfreguei várias vezes os olhos, olhando de novo a visão, mas não podia ter dúvida alguma, pois sua fisionomia se mostrava cada vez mais clara e resplandecente. Pude contemplá-la assim por cerca de dois minutos. Observei sobretudo seus belos olhos, elevados ao céu como para rezar.
Desde então sempre fui corajoso; não me sentia mais sozinho. Tinha também a mais firme esperança de reencontrar minha família e tomei a inabalável resolução de voltar ao Deus da minha infância.
De fato, pouco tempo depois, por motivo de doença, fui retirado do front e conduzido ao hospital; e quando ali alguém perguntou quem queria comungar, não tive medo de manifestar meu desejo.3
“Devo isto à minha pequena Irmã Teresa!”
Desde o início da guerra, tenho comigo uma relíquia da Irmã Teresa. Eis o que me aconteceu. No último dia de batalha na região da Marne, em setembro, tínhamos apenas oito canhões, contra 25 do inimigo. Nesse momento crítico, acabou-se nossa munição e, na precipitação para avançar outra bateria que vinha substituir a nossa, caí e meu canhão passou sobre minhas duas pernas. Elas deveriam ter sido completamente esmagadas, pois cada canhão pesa mais de duas toneladas!
Meus queridos companheiros de armas acorreram para me transportar. Qual não foi, porém, seu espanto ao verem-me levantar sem dificuldade alguma! “Milagre! Milagre!”, gritaram todos. Respondi-lhes logo, com o coração transbordante de gratidão: “Devo isto à minha pequena Irmã Teresa!”. Ato contínuo, tirei do bolso um lápis branco e escrevi em grandes letras no meu canhão: BATERIA IRMÃ TERESA DO MENINO JESUS.
E desde então, quando chove e a inscrição se apaga, eu a reescrevo o mais rápido possível. Tenho uma confiança ilimitada na proteção desta santa.4
Um estilhaço de granada em pleno peito
Sob juramento, afirmo dever a vida à Irmã Teresa do Menino Jesus. Em 16 de março de 1916, na véspera de partir pela segunda vez para o front, um de meus camaradas deu-me uma imagem da santinha, dizendo-me: “Parece que ela obteve já muitos milagres em favor dos soldados, e nos protege”. Até então, eu não a conhecia, mas desde esse dia não deixei de invocá-la todas as noites, rezando um Pai-nosso e uma Ave-Maria em sua homenagem.
Pouco depois, em 30 de abril, participei da sangrenta batalha de Mort-Homme, em Verdun. No terrível combate, sem parar de lutar, eu rezava a Sor Teresa. Recorria a ela, não por medo, pois nunca tive medo, mas lhe pedia que sustentasse minha coragem, coisa bem necessária naquele trágico momento! De repente, na confusão do combate, a 20 metros do inimigo, recebi em pleno peito um estilhaço de granada. Desmaiei e, quando recobrei os sentidos, a batalha continuava no auge. Exaurido e perdendo sangue, não tinha forças para me arrastar para fora. Mas, lembrando-me de minha santa Protetora, gritei: “Irmã Teresa do Menino Jesus, não me abandone!”.
E ela ouviu minha súplica, pois, sob as rajadas das metralhadoras, logo chegaram os padioleiros e me transportaram ao primeiro posto de socorro. Lá, julgando grave o meu caso, um valente capelão administrou-me, ao som dos canhões, a Extrema Unção. Apesar dos sofrimentos, eu me sentia feliz e pensava, com gratidão, que esse socorro religioso eu o devia à Irmã Teresa. Eu tinha tanta confiança na querida santinha que, uma vez ao abrigo das balas, pedi-lhe um segundo milagre: o de curar-me e me guiar até a sua sepultura, em Lisieux. E fui atendido. [...]
Agora sinto-me disposto a todos os sacrifícios, todos os sofrimentos, pois a Santa fez-me compreender que assim expiarei meus pecados e ademais, que Jesus Cristo padeceu muito mais por nós.5
                                                                 * * *
Passou-se um século exato desde o início da terrível guerra e a devoção à Santa da Pequena Via não tem feito senão crescer e expandir-se pelo mundo todo. Pio XI a canonizou em 1925, apenas 28 anos depois de sua morte. E em 1997 São João Paulo II a proclamou Doutora da Igreja.
Fiel à sua promessa de passar o Céu fazendo bem à Terra, tem ela favorecido especialmente as novas gerações, tão necessitadas de ajuda espiritual em razão da sua marcante debilidade.
 1 Termo usado para designar os combatentes franceses da Primeira Guerra Mundial, que significa, literalmente, “peludo”. Sua origem se remonta à época de Napoleão, quando se incorporaram ao exército grande número de soldados vindos do campo, que não tinham o costume de se barbear.
2 Nous les Poilus. Plus forte que l’acier – Lettres des tranchées à Thérèse de Lisieux. Paris: Du Cerf, 2014.
3 Carta de Auguste Cousinard, op. cit., p.17-19.
4 Carta de Paul Dugast, op. cit., p.20-21. Carta de J. Lallement, op. cit., p.64-65.

5 Carta de J. Lallement, op. cit., p 64-65.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Atividades na Capela Nossa Senhora de Fátima

Em suas atividades apostólicas, as Irmãs da Sociedade de Vida Apostólica Regina Virginum levaram a Imagem de Nossa Senhora de Fátima às famílias e rezaram o terço.


Mais um Batismo realizado na Paróquia Nossa Senhora das Graças na Capela Nossa Senhora de Fátima no Parque Petrópolis - Serra da Cantareira.






terça-feira, 10 de julho de 2012

sábado, 23 de junho de 2012

A rosa e os espinhos

Quem nunca feriu os dedos ao segurar, sem o devido cuidado, um formoso “bouquet” de rosas? A reação é instintiva: uma curta exclamação de dor, seguida de um leve balançar da mão. Se a picada tiver sido suficientemente profunda, logo se verá o brilho de um ponto vermelho, o qual se avoluma até se transformar num filete de sangue que vai traçando o seu caminho ao longo do dedo.

Na mente da vítima pode nascer certa perplexidade: uma flor tão bela, a rainha das flores, e com esses espinhos tão pontiagudos!... Deus não poderia ter criado a rosa sem espinhos? A pergunta é compreensível. A resposta virá mais adiante.

Já nos primeiros séculos da Igreja, a rosa passou a ser tomada, por sua beleza, como um símbolo da Virgem Maria. No hino “Akathistos Paraclisis”, das Igrejas do Oriente, se canta: “Maria, Tu, Rosa Mística, da qual saiu Cristo como milagroso perfume”. Também, no Ocidente, na Ladainha Lauretana, rezamos: “Rosa Mística, rogai por nós!”

Por que rosa? Por que mística? E será com espinhos?!

A rosa, como todos sabem, é constituída por pétalas que se sobrepõem e se envolvem numa harmonia perfeita. À medida que ela vai se abrindo, mostra gradativamente suas belezas, ocultas no interior, onde encerra o melhor de seu perfume. Se fixarmos a atenção na textura das pétalas, veremos que são de uma suavidade sem igual, evocando o modo de ser afável e acolhedor com que Nossa Senhora trata seus filhos e filhas.
As flores não emitem sons, mas, se a rosa falasse, como seria o tom de sua voz, para representar Nossa Senhora? Sem dúvida, teria analogia com o aveludado de suas pétalas...

Também, ao longo da História, o aprofundamento no conhecimento de Maria cresceu, à medida que a Igreja foi desvendando os tesouros de sua alma imaculada, tal como descobrimos a beleza encantadora da rosa enquanto vai desabrochando.
Entre as riquezas que Maria guarda no interior de seu coração virginal — tal como o encanto da rosa se esconde no âmago de suas pétalas — há graças e dons do Espírito Santo que elevam sua alma à mais íntima união com Deus.

Aos que se aproximam da Rosa Mística com admiração e devoção, Ela os faz generosamente participar de suas graças e de seus dons, inebriando-os com a fragrância de seu odor, que não é senão o próprio perfume de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Mas, e os espinhos? Não são o contrário da suavidade e delicadeza próprias à Virgem das Virgens?
São eles uma imagem eloqüente da rejeição ao pecado. Lembram-nos a existência do mal.

Como nem a mais leve sombra de mancha ou imperfeição obscureceu a alma de Maria, por sua completa rejeição ao mal, Ela é o terror dos demônios, sendo representada em muitas de suas imagens calcando aos pés a Serpente. Sem perder nada da suavidade maternal com que acolhe os que Lhe pedem proteção, Ela a pisa com firmeza e superioridade esmagadora, sem baixar o olhar, sequer, para o réptil que rasteja a seus pés.

A rosa é, pois, um belo e adequado símbolo de Nossa Senhora, evocando a mais alta contemplação de Deus e, ao mesmo tempo, a repulsa intransigente ao mal. Se a rosa tivesse sido criada sem espinhos, que flor conseguiria representar tão bem essas virtudes contrárias, mas harmônicas, da alma puríssima de Maria? 

segunda-feira, 18 de junho de 2012

A arte de comer com espírito

Em culinária, a qualidade dos ingredientes e o esmero na preparação dos pratos não são suficientes para agradar os convivas. Os aspectos psicológicos e espirituais têm grande relevância na boa mesa.
Uma das últimas tendências gastronômicas em Paris acena para a “arte de comer com espírito”, segundo notícia da conhecida revista parisiense “Figaro Magazine”. Ressalta ela também a existência de uma “recusa de portar-se à mesa de modo enfadado”. Após prevenir o riso irônico que essa afirmação pode provocar — pois, em princípio, ninguém senta-se de má vontade à mesa — a revista acrescenta:
“Entretanto, nem todos os restaurantes estão aptos a atenderem tais requisitos. Claro está que ninguém vai comer as cortinas das salas de jantar, mas no momento atual o ambiente tornou-se um dos pontos fundamentais do bom acolhimento nos estabelecimentos. A decoração absorve tanto a atenção do “maître” como a dos clientes.
“Hoje em dia as pessoas não se contentam mais com restaurantes onde há apenas pratos brancos, sem decoração. Desejam mais. Querem um complemento para a alma, que seja um prolongamento do ambiente familiar, que tenha alguma transcendência, algo de imponderável. Inúmeros são os restaurantes que chamam a atenção para o elemento surpresa, para o que não se esperava.”
Conclui a Revista afirmando que nos restaurantes o papel preponderante não pode mais ser reservado exclusivamente aos alimentos enquanto tais. Eles devem ser apresentados de modo agradável e decorativo.
 * * *
Durante décadas, certa publicidade materialista vem inculcando a idéia de que, em matéria de alimentação, não se deve dar qualquer importância aos aspectos psicológicos, ou seja, à bela apresentação dos pratos, arrumação das mesas, decoração dos ambientes. Pois, afirma-se, uma vez saciada sua necessidade de nutrição, o homem está suficientemente atendido, podendo o restante ser excluído de suas preocupações.
Ora, esta é uma doutrina errada, pois o homem é composto de corpo e alma — ou melhor, na ordem certa, de alma e corpo — e justamente nisto consiste sua semelhança com os anjos, puros espíritos. E atender, no campo da gastronomia como em qualquer outro, tão somente a um dos seus elementos constitutivos, acaba produzindo a atrofia do outro. Este é precisamente o malefício imposto pela mencionada mentalidade consumista materialista à sociedade atual.
Por este motivo, é alentadora a notícia de que, afinal, depois de ser comprimida durante tanto tempo, a apetência do belo e do bem-arranjado ressurge com uma força inesperada: “As pessoas não se contentam mais com restaurantes onde há apenas pratos brancos, sem decoração. Desejam mais. Querem um complemento para a alma”.
Note-se que Paris sempre foi considerada a capital gastronômica do mundo. E isto, tanto no que diz respeito à alta culinária dos restaurantes caros e selecionados, quanto no tocante ao nível médio ou mesmo popular. Por outro lado, o público francês sempre foi dos mais exigentes nesta matéria, não aceitando meias-medidas. Isto dá especial realce ao fato de que, tendo podido atender geralmente a todos os requisitos de uma boa alimentação corporal, os parisienses sintam agora maior necessidade de “um suplemento para a alma”.
Numa sociedade que levou quase ao delírio o culto dos bens meramente materiais, esta notícia só pode ser recebida com alento por aqueles que almejam também pelos bens do espírito. Tanto mais se considerarem que as manifestações dessa forte tendência talvez sejam os primeiros lampejos de uma renovação muito mais ampla, pela qual clama a alma humana.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Confiança!

Quem passeia pelas encantadoras páginas do Livro da Confiança, escrito pelo Pe. Saint Laurent, impressionase com a demonstração lógica de que sempre estamos sendo conduzidos por Deus para o cumprimento da missão que d’Ele recebemos, por mais que as aparências enganosas procurem afirmar o contrário. Esta sublime verdade da Fé católica reflete-se de forma muito interessante na historieta abaixo, enviada por um leitor.
Três grandes aspirações
Na colina de um bosque se achavam três arbustos, crescendo em direção ao sol e conversando sobre seus sonhos e aspirações. O primeiro arbusto olhou para as estrelas e disse: “Eu sonho em ser um cofre para guardar tesouros: ouro, prata pedras preciosas.”
O segundo almejava ser uma poderosa embarcação, transportar reis e grandes personalidades através dos mares.
“Pois eu — disse o terceiro — desejo crescer e crescer, ser a mais retilínea e a mais alta de todas as árvores do bosque, de modo que todos quantos me vejam no alto desta colina pensem em Deus. Quero ser a maior árvore de todos os tempos e estar sempre na memória dos homens.”
Três amargas decepções
Ao longo de muitos anos, choveu, o sol brilhou e as três árvores cresceram. Um dia, três lenhadores subiram ao cume da colina. Olhando para a primeira delas, disse um deles: “Que árvore formosa esta!” E cortou-a para vender a madeira a um carpinteiro. A árvore ficou feliz, pois sabia que o carpinteiro podia convertê-la em um cofre de tesouros.
Outro lenhador analisou a segunda árvore e disse: “Esta árvore é muito forte, é perfeita para mim, vou vendê-la ao carpinteiro do porto.” E a segunda também ficou feliz, vendo que estava a caminho de transformar-se em uma poderosa embarcação.
A terceira, porém, entristeceu-se quando o último lenhador dela se aproximou, pois sabia que, se ele a cortasse, seu sonho nunca se tornaria realidade. A primeira árvore foi convertida em uma manjedoura e posta num estábulo onde o gado ia comer. Sentiu-se mal, pois era o contrário do que havia sonhado. A segunda foi transformada em uma insignificante embarcação, tão pequena que não podia navegar em alto mar. Triste fim de um sonho grandioso! A terceira foi serrada em pesadas pranchas e guardada num depósito.
Três realizações esplendorosas
Passaram-se os anos. Um dia abrigaram-se no estábulo um homem e uma mulher de sublime aspecto. Ela deu à luz um menino resplendente de formosura e o colocou na manjedoura feita da primeira árvore. Esta, então, rejubilou-se ao saber que estava contendo nada mais nada menos do que Jesus, o maior tesouro da História.
Anos depois, alguns pescadores navegavam na barca construída com a segunda árvore. De repente, desatou-se uma forte tempestade, pondo em perigo a vida dos navegantes. Mas um deles levantou-se e disse: “Acalma-te”, e a tormenta cessou imediatamente! Nesse momento a segunda árvore estremeceu de alegria, ao perceber que transportava o Rei dos Reis.
Algum tempo depois, numa triste sexta-feira, um homem de semblante divino tomou as pranchas da terceira árvore, carregou-as pelas ruas, enquanto pessoas perversas o insultavam, espancavam e lhe cuspiam. Deteve-se no alto de uma pequena colina, onde foi cravado nas pranchas e nelas morreu. Quando chegou o domingo, a árvore se deu conta de que, erguida no cimo da colina, esteve tão próxima de Deus como nunca, porque Jesus nela havia sido crucificado.
Moral da história
Mesmo quando tudo pareça contrariar tuas melhores esperanças, não te esqueças de que Deus tem um plano para ti. Põe n’Ele tua confiança. Recorda-te de que cada árvore viu superiormente realizada sua boa aspiração, embora de modo bem diferente do que imaginara.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

A glória de João Ninguém

Pe Ignacio Montojo
Há poucos dias, encontrava-me rezando o Rosário numa igreja de São Paulo, quando, sem me dar conta, interrompi a oração para analisar um personagem que acabava de entrar.
Pobremente vestido, seu andar e seu rosto denotavam um homem maltratado pelos anos e por duros sofrimentos. Tudo nele indicava o que no mundo de hoje se chama um “fracassado na vida”, ou, em outros termos, um “João Ninguém”: sem dinheiro, sem saúde, sem prestígio, talvez sem amigos.
Tomado de compaixão pelo pobre homem, notei com alegria que, ao passar diante do Tabernáculo, dobrou ele um dos joelhos e fez pausadamente o sinal-da-cruz. Pensei com meus botões: “Pelo menos é batizado, tem fé, é um membro da Santa Igreja.”
E mal terminei essa cogitação, dei-me conta do paradoxo nela inserido: “Pelo menos...é batizado!!!”
Quando, certo dia, um sacerdote derramou água sobre a cabeça deste pobre João Ninguém e disse: “Eu te batizo, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”, algo de muito especial aconteceu na sua alma. As três divinas pessoas da Santíssima Trindade passaram a habitá-la. Tornou-se possível para ele crer nas verdades da Santa Igreja, esperar a recompensa demasiadamente grande do Céu e amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Viu-se ele transformado em filho adotivo do Rei do Universo e herdeiro de seu maravilhoso Reino. Ficou limpo da terrível culpa de nossos primeiros pais, o pecado original, e abriram-se para ele as portas do Céu.
Sim, por efeito do Batismo, todo João Ninguém é elevado a um nível que nem o governante mais poderoso, o gênio mais brilhante, o filósofo mais erudito poderiam alcançar por sua própria natureza e méritos.
E a pessoa não-batizada, em que situação está?
Imaginemos um lindo passarinho que, entretanto, nasceu aleijado e — coitadinho! — nunca levantou vôo. Andou pelos campos e quiçá até traçou um caminho reto... Mas se não voar, que será ele em relação às outras aves?
O infortúnio desse pássaro imaginário é semelhante ao do homem não-batizado. Tal como a ave incapaz de voar, ele tem sua finalidade truncada, ainda que levando uma vida direita. Pois não possui as asas da Fé, Esperança e Caridade para cumprir a finalidade de todo ser humano, isto é, “conhecer, amar e servir a Deus e mediante isto salvar sua alma”, conforme nos ensina Santo Inácio.
Mas, poderíamos pensar, o que fez esse João Ninguém para merecer tal glória? Não haveria outros que mereceriam mais? Esta é uma pergunta baseada exclusivamente nos critérios humanos. Ninguém recebe a graça do Batismo por merecimento próprio, mas sim pelos méritos infinitos de Jesus que nasceu de Maria Virgem, padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos e foi crucificado para nos redimir. Quando na Cruz Ele, “inclinando a cabeça, entregou o espírito” (Jo 19, 30), conquistou para João Ninguém e para a humanidade inteira essa graça incomensurável.
Após estas reflexões sobre a grandeza de todo “pobre” João Ninguém, tabernáculo da Santíssima Trindade, ofereci o resto do meu Rosário para agradecer o dom imenso do Batismo, não só a Nosso Senhor Jesus Cristo, mas também a Maria, sua Mãe Santíssima, pois Ela deu seu consentimento para que seu Filho Divino morresse por nós, e contribuiu com suas lágrimas para resgatar todos os João Ninguém que passam despercebidos diante dos “grandes” do mundo.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Os efeitos do Batismo

Sete maravilhosos efeitos do Batismo
O Sacramento do Batismo produz, naquele que o recebe, uma série de divinas maravilhas. Eis as principais:
1) Infunde a graça santificante, com o matiz especial de graça regenerativa, que é a própria do batizado, tornando-o capaz para a recepção dos demais Sacramentos.
2) Converte o batizado em templo vivo da Santíssima Trindade, pela divina inabitação em todas as almas em estado de graça.
3) Infunde o germe de todas as virtudes infusas e os dons do Espírito Santo.
4) Torna-o membro vivo de Jesus Cristo, como ramo da divina Videira (Jo 15, 5).
5) Imprime o caráter batismal, o qual o torna membro vivo do Corpo Místico de Jesus Cristo, que é a Igreja, e lhe dá uma participação real e verdadeira (embora incompleta) no sacerdócio de Jesus Cristo. Esta participação sacerdotal se aperfeiçoa com o caráter do Sacramento da Confirmação e se completa com o caráter do Sacramento da Ordem.
6) Apaga totalmente da alma o pecado original e todos os pecados atuais, antes cometidos; esses pecados não são apenas cobertos, mas apagados de fato, e de forma definitiva. Assim o definiu expressamente o Concílio de Trento (D n. 792).
7) Perdoa toda a pena devida pelos pecados, tanto a temporal como a eterna. De modo que se um pecador recebe o Batismo no momento da morte, entra imediatamente no Céu, sem passar pelo Purgatório. Foi o que ensinou o Concílio de Florença (D n. 696) e o de Trento definiu (D n. 792).
(ROYO MARÍN, OP, Pe. Antonio. Somos hijos de Dios. Madrid: BAC, 1977, p. 69-70).

sábado, 5 de maio de 2012

Igreja e o trabalho

Mais do que o lugar em que as almas dos fiéis são atraídas para o culto a Deus, a igreja é a forja na qual se tempera a vida espiritual de cada missionário, dourada pelos raios divinos da graça e enrubecida pelo sofrimento que faz sangrar a alma ou o corpo, nas grandes imolações e nos gloriosos triunfos da vida interior. 


No altar a imagem de Maria sorri aos aflitos e aos pecadores, ostentando-lhes seu Coração Imaculado, como promessa de perdão e de socorro. E assim são atraídas por uma devoção que é característica de nossa Fé, devoção que constitui em si mesma um modelo primoroso de delicadeza e de elevação moral.
Realmente, é na oração do templo, é na meditação, é no estudo, é no recolhimento da vida interior, que a Fé se firma e adquire aquele vigor, aquela extensão, aquela firmeza necessária para projetar seus princípios sobre os setores da atividade material e moral dos homens. É no templo, pois, com o auxílio da graça de Deus, que as almas se formam, que as inteligências se iluminam, que as vontades se temperam, e que o fruto do trabalho interior floresce em permanentes resoluções salutares. Em seguida, essas ideias acumuladas pela vida interior e tornadas ardentes pelo zelo, tendem a se difundir de modo benéfico sobre todas as criaturas.
E vem então o trabalho, que, posto ao serviço da contemplação e do estudo, é o canal pelo qual as maravilhas operadas por Deus nas almas se derramam em torrente benéfica sobre a humanidade.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

SÚPLICA OUSADA, PORTENTOSA RECOMPENSA


Capela Sagrado Coração de Jesus - Paróquia Nossa Senhora das Graças

Por ter muita fé, confiança e persistência, uma devota da Eucaristia obteve o que pedia. Exemplo para todos quantos querem ser ajudados. Haverá quem não o queira?

Paris, 31 de maio de 1725. Pelas ruas engalanadas do “Faubourg Saint-Antoine”, seguia majestosa a procissão do Santíssimo Sacramento.
A certa altura, um acontecimento inesperado quebrou a solenidade do augusto evento. Na porta de uma casa, uma mulher visivelmente extenuada por alguma enfermidade desvencilhou-se das amigas que a sustentavam de pé e tentou ajoelhar-se diante do Deus Sacramentado que passava.
O resultado foi desastroso: caindo ao chão, viu-se ela reduzida à humilhante situação de ficar apoiando-se nos joelhos e nas mãos.
Indiferente a tudo, porém, fixando a branca Hóstia consagrada, ela suplicava em alta voz: “Senhor! Se quiserdes, podeis curar-me!” Algumas pessoas compassivas fizeram menção de ajudá-la, mas ela, sem lhes dar atenção, insistia: “Senhor, sois o mesmo Jesus que restituiu a saúde a tantos enfermos, durante vossa vida terrena. Perdoai meus pecados e serei curada!”
Vendo passar o Santíssimo Sacramento, ela começou a avançar de rastos, como podia, e não cessava de gritar: “Jesus Cristo, curai-me!”
— Coitada, é uma louca — comentavam alguns.
— Está embriagada... — sentenciavam outros
De uma ou outra maneira, todos os circunstantes mostravam-se escandalizados por esse espetáculo de uma mulher arrastando-se assim por terra e gritando sem parar. E a pressionavam para que se retirasse.
Mas nada foi capaz de detê-la: “Deixai-me livre de seguir meu Deus!” — respondia aos que a interpelavam. E continuou a avançar, repetindo aos brados sua súplica: “Senhor, perdoai meus pecados, e serei curada!”
Quem era a heróica protagonista dessa dramática cena que nos faz recordar vivamente diversos episódios dos Santos Evangelhos?
Fé recompensada
Era uma mulher cuja fé foi posta à prova de forma admirável e recompensada com um maravilhoso prodígio que comove e serve de exemplo para todos quantos dele tomam conhecimento.
Chamava-se Ana, tinha 45 anos, era esposa do mestre-marceneiro Delafosse, senhora de vida exemplar e piedade edificante. Há duas décadas, sofria de uma hemorragia que foi se agravando a ponto de os médicos julgarem tão inútil quanto perigoso prosseguir o tratamento.
Nos últimos meses, seu esgotamento não lhe permitia mais caminhar nem sequer de muletas. As dores tornavam-lhe insuportável a permanência no leito, e precisava ser carregada para sentar-se numa poltrona. Esse seu lamentável estado era público e notório no “Faubourg Saint-Antoine” e em vários outros bairros de Paris.
Reduzida a esse extremo, ela tomou a resolução de recorrer diretamente a Nosso Senhor Jesus Cristo no dia em que a procissão do Santíssimo Sacramento passaria diante de sua casa. Chegada a hora, pediu para ser levada até a porta. Lá permaneceu à espera, sustentada por duas caridosas amigas.
Quando uma delas lhe disse: “Está chegando o Santíssimo Sacramento”, ela soltou-se de seus braços e tentou ajoelhar-se sozinha. Aí deu-se o comovente episódio narrado acima.
Persistência recompensada
Longe de se deixar abater pelos que a pressionavam para sair da procissão, Ana Delafosse sentiu-se de repente fortalecida e conseguiu pôr-se de pé. Então, gritou com voz mais forte ainda: “Senhor, concedei-me a graça de entrar na vossa igreja, e serei curada!” Isto dito, pediu àquelas que a amparavam para soltá-la, pois queria caminhar sozinha.
Estupefação geral! Todos a viram andar no meio da multidão. Sem socorro de ninguém, mas perdendo uma grande quantidade de sangue, ela continuou caminhando até a igreja paroquial de Santa Margarida, ponto terminal da procissão.
Diante da porta da igreja, Ana Delaffose intensificou suas preces: “Senhor! Não permitais que eu entre no lugar santo sem estar plenamente curada!”
Os circunstantes observavam com crescente respeito e admiração essa mulher tão sofredora, tão confiante e ousada em suas súplicas.
No exato momento em que transpôs o umbral do templo sagrado, ela sentiu secar-se a fonte da hemorragia. Sem ajuda de pessoa alguma — ora de pé, ora de joelhos — assistiu à longa Missa solene durante cerca de duas horas. Depois se aproximou do sacrário e ficou rezando mais algum tempo diante de Jesus Sacramentado.
Quando, por fim, retornou à sua casa — caminhando com toda normalidade, sem qualquer auxílio — foi acompanhada de uma grande multidão, que louvava a Deus por ter dado aos pobres mortais uma tão eloqüente prova de seu poder e de sua bondade.
Lá chegando, a feliz Ana não pôde conter um sorriso ao ver que estavam à porta alguns parentes, com uma poltrona, prontos a carregá-la para sua cama de enferma incurável... Não tendo presenciado o milagre, não conseguiam esconder seu espanto ao verem-na subir a escada e caminhar pela casa como se nunca houvesse estado doente.
Testemunhas insuspeitas
A notícia do prodígio espalhou-se por toda a cidade. Um dos primeiros a dele tomar conhecimento foi o Dr. Prouhet, cirurgião que dela havia tratado durante quinze anos seguidos. “Não acredito, a menos que eu mesmo a veja caminhando”, afirmou. E foi no mesmo dia verificar com seus próprios olhos. Vendo-o entrar na casa, sua ex-cliente levantou-se e foi ao seu encontro, dizendo:
— Meu caro Doutor, um médico muito mais poderoso do que vós acaba de me curar!
Dois ilustres contemporâneos deixaram registrados seus insuspeitos depoimentos.
O advogado Barbier anotou em suas memórias: “Tivemos em Paris, na procissão de Corpus Christi, um milagre tão autêntico que até eu vejo-me obrigado a nele crer, o que não é pouca coisa” (Diário de Barbier, tomo I, p. 119).
E o ímpio Voltaire, tendo testemunhado o fato, depôs favoravelmente na investigação promovida pela autoridade eclesiástica. Escreve ele, numa carta a Madame de Bernières: “O milagre do ‘Faubourg Saint-Antoine’ deu-me um pequeno verniz de devoção. Fui citado no decreto. Fui convidado para o Te Deum cantado em ação de graças pela cura da Sra. Delafosse”.

Fachada da Igreja de Santa Margarida, em Paris, onde Ana Delafosse
foi miraculosamente curada

Pronunciamento da autoridade eclesiástica
Tomando conhecimento do extraordinário acontecimento, o Arcebispo de Paris, Cardeal Noailles, promoveu logo um inquérito. As informações e depoimentos de sessenta testemunhas conduziram à constatação da inegável veracidade do fato: a Sra. Delafosse, sofrendo de uma moléstia que se agravava a cada dia, de tratamento já não só inútil mas até mesmo perigoso, ficou num instante inteiramente curada, a ponto de parecer ter gozado sempre de perfeita saúde.
Não havendo, pois, como pôr em dúvida esses fatos, o Cardeal-Arcebispo Noailles emitiu um decreto de reconhecimento do milagre. E determinou que todos os anos, no domingo da oitava da festa de Corpus Christi, se realizasse uma comemoração litúrgica na Igreja de Santa Margarida.
Emocionado, o experiente cirurgião não mais duvidou do milagre, após ver a mulher descer com ele a escada e acompanhá-lo até a porta de saída, movimentando-se com a agilidade de uma jovem saudável.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Diário de um penitente

Nos países europeus, é muito comum as pessoas — desde as mais elevadas personalidades até simples camponeses — registrarem num caderno os acontecimentos, as reflexões ou impressões que mais lhes despertaram a atenção. Esses “diários” constituem, inclusive, uma preciosa fonte de informações para os estudiosos, sobretudo os que se dedicam a escrever o que os franceses chamam de la petite histoire (a pequena história).
Há mais de dez anos, ouvi de um ilustre conferencista brasileiro a narração do fato abaixo, lida por ele num livro de escritor francês. Transmito-a de memória aos leitores de nossa Revista, mais preocupado com seu valioso conteúdo moral do que com a precisão dos detalhes concretos.
Como turista inteligente, caminhava calmamente esse escritor pelas ruas de Roma, a “Cidade Eterna”, sem plano pré-estabelecido, “sentindo” os lugares densos em cultura e tradições, analisando os grandiosos monumentos, as pitorescas ruas e praças.
Andando, por assim dizer, sem rumo, aconteceu-lhe de passar pelos fundos de uma das inúmeras igrejas da cidade pontifícia e de notar por mero acaso, gravada na pedra, uma inscrição que lhe despertou a curiosidade. “Será o memorial do arquiteto que construiu o edifício sagrado? Ou será obra de algum vândalo?” — pensou ele.
Aproximou-se e, logo de início, notou o detalhe da letra quase artisticamente desenhada. Leu a primeira frase: “Hoje, 25 de agosto, pequei. Mas, graças a Deus, já me confessei”. Emocionado, constatou o escritor que a inscrição era o “diário espiritual” de um pecador arrependido e decidido a marcar na pedra, para todos os séculos, seu testemunho de luta, humildade e gratidão.
Logo a seguir, igual gemido de alma: “Hoje, 26 de agosto, tornei a pecar. Mas já me confessei, graças a Deus”. Sucediam-se assim as frases, sempre iguais na substância, com ligeiras variações na forma. Mas com um detalhe importante: à medida que passava o tempo, ia ficando maior o período entre uma queda e outra. De quase quotidianas no princípio, passaram a ser semanais, mensais. Depois, vários meses sem pecar.
Por fim, nosso turista-escritor chegou à última frase, um verdadeiro brado de vitória e gratidão: “Hoje, 13 de março, faz um ano que não peco. Deus seja louvado!”
Comovido até as lágrimas, teve ele vontade de ajoelhar-se e oscular aquela relíquia de uma alma que, em vez de desanimar à vista de sua fraqueza, confiou na misericórdia de Deus, perseverou na oração, pela qual obteve as graças superabundantes para lutar com êxito até alcançar vitória completa.
Bendito, certamente, é o sangue dos mártires derramado no Coliseu e em tantos outros lugares da Terra. Benditas também as confissões gravadas nesse “diário” de pedra, as quais nos trazem vivamente à memória o livro “Confissões”, do grande Doutor da Igreja, Santo Agostinho.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Semana Santa Paróquia Nossa Senhora das Graças- Via-Sacra

Os Arautos do Evangelho promoveram, na Semana Santa, uma Via-Sacra no Parque Petrópolis, Serra da Cantareira.
Foram meditados as 14 estações, ou seja, os principais passos de Nosso senhor Jesus Cristo durante sua Paixão.