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segunda-feira, 29 de abril de 2013

O Altar, símbolo de Cristo



No início do Cristianismo, o altar era de madeira, tendo a forma das mesas usadas nas refeições, pois a Eucaristia era celebrada nas casas particulares. O altar de pedra generalizou-se, sobretudo no Ocidente, devido ao costume de celebrar as festas dos mártires sobre a pedra do seu sepulcro. Com a paz de Constantino e, mais especialmente, sob o pontificado do Papa Dâmaso (366-384) foram construídas, tanto em Roma como noutras cidades, basílicas e igrejas em honra dos mártires mais ilustres, sendo os altares erigidos sobre seus túmulos. O Liber Pontificalis atribui ao Papa Félix (269-274) um decreto no qual se ordena celebrar a Missa sobre os túmulos dos mártires (Constituit supra memorias martyrum missas celebrare, Lib. Pont., ed. Duchesne, I, 158).
Com o correr dos séculos, a simbologia do altar ficou associada também ao fato de ser de pedra, como se pode ver pela interpretação dada pelo Doutor Angélico, na Suma Teológica: Isso convém ao significado da Eucaristia, seja porque o altar simboliza a Cristo, como diz Paulo: “este rochedo era o Cristo”(Cor 14,4), seja também porque o corpo de Cristo foi sepultado num sepulcro de pedra. Além disso, convém ao uso do Sacramento, uma vez que a pedra é sólida e pode ser encontrada em qualquer parte (S.T. III, q. 83. a. 3, ad 5).
Esse antiquíssimo costume de celebrar a Missa sobre os túmulos dos mártires está na origem da recomendação da Igreja de colocar sob a pedra do altar relíquias de mártires ou de santos.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Paróquia Nossa Senhora das Graças

“Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes”.( Mt 25,40)

Em uma tarde como as outras e os moradores de Caieiras desempenhavam suas funções rotineiras quando, de repente, ouviram um ruído de carro e alguém os chamar.

Eram as irmãs da Sociedade de Vida Apostólica Regina Virginum ( ramo feminino dos Arautos do Evangelho) que levando uma consoladora mensagem de confiança em Nossa Senhora, distribuíam medalhas, livros e presentes aos fiéis da Paróquia Nossa Senhora das Graças











segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O homem que sabia o dia de sua morte

O jovem Conde Rodolfo, homem saudável e forte, de formosa aparência, destro no manejo das armas, exímio cavaleiro e hábil caçador, imaginava que jamais morreria ou que, pelo menos, isto só lhe aconteceria depois de muitos e muitos anos.
Numa fria tarde de outubro de 1321, embrenhou-se ele na densa floresta, perseguindo a presa que tentava escapar-lhe. Quando já começava a escurecer, avistou entre as árvores algo que lhe parecia uma parede. Cansado de cavalgar, desmontou, aproximou-se e viu que era uma antiga capela abandonada. Entrou. Tudo estava em ruínas: vitrais quebrados, bancos virados, poeira acumulada, morcegos, etc.
De qualquer forma, pensou, há paredes e teto, é melhor do que nada. Juntando alguns bancos, improvisou um leito e, exausto como estava, logo adormeceu.
Noite alta, acordou ouvindo um som de sinos. Extremamente surpreso, esfregava os olhos e não conseguia acreditar no que via: a pequena capela estava iluminada e repleta de fiéis. No altar, um sacerdote celebrava a Missa. Perto do presbitério, estava um caixão. Era, pois, uma Missa de corpo presente, concluiu ele.
— Desculpe-me, senhora, mas na intenção de quem está sendo celebrada esta Missa? — perguntou. —
Então Vossa Senhoria não sabe quem morreu? É um nobre cavaleiro da região de Zurique, que se perdeu nesta floresta durante uma caçada e foi encontrado morto hoje... dia 26 de outubro de 1371. O Conde Rodolfo estremeceu todo. Com um estranho pressentimento, quis saber quem era esse cavaleiro. Aproximou-se do caixão, levantou o véu que cobria o rosto do defunto e... sentiu um terrível calafrio. O morto era ele! Já estava envelhecido, é certo, mas não restava dúvida alguma de que era mesmo ele que estava naquele caixão.
Dando um grito de susto... acordou. Percebeu então que aquele terrível sonho era um aviso do Céu: morreria exatamente dali a 50 anos.
Saiu da igreja e retornou ao esplêndido castelo de sua família, onde se realizava uma magnífica festa. Em meio à alegria e aos divertimentos, pensou: “50 anos é muito tempo. Quer saber de uma coisa? Vou fazer uma divisão inteligente: nos primeiros 25 anos, gozarei a vida e nos 25 restantes me prepararei seriamente para a morte”.
Passou, assim, 25 anos de diversões, caçadas, festas, alegria contínua. Mas... escoaram-se muito rapidamente! Então, o Conde decidiu: “Ora, ora, 25 anos é tempo demais de preparação para a morte. Assim, os próximos 15 anos serão um prolongamento dos 25 que já se foram. Quando faltarem só 10, aí sim, me prepararei seriamente”.
E assim sucedeu... Foram mais 15 anos de prazeres, que transcorreram mais rapidamente que os 25 anteriores. A cada término de prazo, o Conde fazia nova “divisão inteligente” do tempo restante, chegando, desta forma, ao derradeiro mês de sua vida.
Um mês apenas!... Era, pois, preciso despedir-se dos familiares e amigos. Mandou carta a todos os nobres vizinhos, convidando-os para uma grande caçada. Em 25 dias, estavam todos reunidos no seu castelo. Foram três dias de intensa comemoração.
Restavam-lhe agora apenas dois dias!
“Não posso deixar sair meus convidados sem um banquete de despedida” — pensou o Conde. E marcou um monumental almoço para o dia 25 de outubro, seu último dia de vida!
Após o banquete, sentiu necessidade de descansar um pouco, para poder então fazer uma boa confissão. Já deitado, sentiu as primeiras dores da morte iminente, chamou um criado e, com voz cavernosa, mandou trazer depressa um padre.
O fiel servo correu ao vilarejo próximo, à procura do Pároco. Enquanto isso, o Conde Rodolfo — que desperdiçara 50 anos de prazo para preparar-se — começou a ver vultos movimentando-se em torno de sua cama, como que à espera do momento de levá-lo para o inferno. Ofegante, observava a ampulheta do tempo prestes a esgotar-se. Faltando apenas cinco minutos para meia-noite, ouviu o ruído da carruagem que se aproximava, com o padre.
Tarde demais!... Antes de entrar o sacerdote, soou o primeiro badalar dos sinos, anunciando um novo dia!
Desesperado, o Conde soltou um horrível brado e... acordou verdadeiramente. Com grande alívio, percebeu que estava diante do crucifixo enferrujado da capela em ruínas no meio da floresta, onde entrara para repousar poucas horas antes.
Tudo não passara de um sonho.
De um mero sonho, não! Pois o jovem Conde Rodolfo tomou a sério o misericordioso aviso. Daí em diante, seguiu decididamente o caminho da virtude e da devoção a Nossa Senhora. Pelo exame de consciência diário e pela confissão frequente, manteve-se sempre preparado para o último e mais importante dia de sua vida: o dia de seu encontro com Deus.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Histórias para catequese

Assim nasceram as andorinhas
Há perto de dois mil anos, numa manhã clara e aprazível, o sol espargia seus raios benfazejos sobre a região de Nazaré, na Galileia.
Algumas crianças brincavam num campo à margem do caminho que leva a Jerusalém. No meio da alegre e animada reunião destacava-se a figura atraente e luminosa de um Menino Divino: Jesus, o filho de José, o carpinteiro, e de Maria, o Salvador predito por Zacarias, o esperado por mais de quatro mil anos pelos patriarcas e profetas de Israel. Estava Ele ali também a brincar e a distrair-se com os companheiros entre risos e exclamações de inocente e límpida felicidade.
Formavam eles pequenos passarinhos com a argila do caminho, e os criativos dedinhos infantis modelavam à vontade a cauda, as asas, o bico e os olhos das avezinhas imaginadas. Pareciam voar aqueles pássaros de barro enquanto suas asinhas estendidas secavam-se ao vento quente de verão!
Ora, era dia de sábado. Um austero ancião de testa franzida e roupa surrada passou, então, pela estrada que leva a Jerusalém e, ao deparar-se com a ruidosa assembleia que despreocupadamente continuava seus “trabalhos” de modelagem, gritou com voz dura:
— Meninos, hoje não é permitido laborar com as mãos!
A estupefação estampou-se nas cândidas fisionomias dos “escultores”...
Sem aguardar resposta, o rígido seguidor da lei mosaica, cheio de azedume, levantou ameaçadoramente um rústico bastão e dispunha-se a transformar em cacos as graciosas figurinhas...
Então Jesus, o filho de Maria, ergueu-se e bateu palmas sobre as aves de barro. Oh, comovedor milagre! — elas cobraram vida e cor, levantaram leve e apressado voo e perderam-se no azul do firmamento.
* * *
Depois daquele feliz dia, todas as andorinhas — pois é delas que narramos a história —, fiéis à lembrança de sua encantadora origem, protegidas e abençoadas por Jesus, constroem seus ninhos de argila sob os telhados das casas.
São elas símbolo de bênção e prosperidade nos lugares onde habitam.
* * *
Quando Jesus exangue subiu ao alto do Calvário no trágico dia de Sexta-feira Santa, em que pavorosas trevas tomavam conta do universo, as humildes e gratas andorinhas, em bando reverente e compassivo, vieram arrancar com seus delicados bicos os espinhos que perlavam de sangue a fronte adorável e sagrada do Mestre, o arrebatador Menino do caminho de Nazaré que num sublime e divino impulso, cheio de alegria, cerca de trinta anos atrás as havia criado...
E, a partir da morte de Jesus, o Criador amado, a andorinha, peregrina alada, numa suprema homenagem de amor e ternura, traja com nobre e distinta ufania seu escuro manto de luto...

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Valha-me, Nossa Senhora!

José Luís era um menino muito esperto. Vivia com seus avós na fazenda Andorinha, onde lhe encantava correr pelos campos, brincar com os animais e colecionar ninhos de passarinhos. Apesar de seus 9 anos já feitos, tinha compleição miúda e, por isso, todos o chamavam de Zezinho.
Na escola, estava começando a ler e escrever e aprendia rápido, pois Deus lhe dera grande inteligência. E no Catecismo não havia quem o superasse. Sempre era o primeiro entre os meninos e já tinha uma grande coleção dos santinhos que o padre Arnaldo dava aos alunos mais aplicados. Gostava, sobretudo, dos de Nossa Senhora, em suas diversas invocações: Mãe do Bom Conselho, Auxílio dos Cristãos, Mãe da Divina Graça, Nossa Senhora da Confiança.
Todas as manhãs, antes das aulas, servia de coroinha na Missa celebrada pelo padre Arnaldo. Mas como não podia ainda comungar, terminada a cerimônia, se dirigia ao altar de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e rezava com toda confiança:
— Minha Mãe, preparai-me bem para a Primeira Comunhão, dai-me a graça de sempre ser vosso filho, valei-me em todas as minhas necessidades e não permitais que eu Vos abandone.
Em seguida, recitava três Ave-Marias.
À tarde, depois de fazer as lições, saía pelos campos para brincar. Corria com os cachorros, cuidava das galinhas e cavalgava pela mata adentro, em busca de seus preciosos ninhos. Sempre voltava com algo: uma casa de joão-de-barro, um ninho de pintassilgo ou de colibri.
O capataz ficava bravo com ele, porque destruía o abrigo dessas indefesas criaturas.
Ele ria e dizia:
— Não se preocupe, senhor Joaquim, sempre tomo o cuidado de esperar que os filhotes já tenham aprendido a voar!
E corria satisfeito para o celeiro, onde guardava cuidadosamente sua coleção.
Às noites, depois do jantar, era a hora da oração em família. Sua avó Dorotéia tinha um bonito oratório de Nossa Senhora das Graças, e ali se reunia com Zezinho, o avô Carlos e os empregados da fazenda para, juntos, rezarem o Santo Rosário e a Ladainha à Santíssima Virgem, e por fim entoavam um hino em louvor à Mãe de Deus.
Antes de se dirigirem para o merecido descanso, depois de um dia cheio de afazeres, dona Dorotéia costumava dizer-lhes:
— O melhor travesseiro é uma consciência tranqüila!
Numa tarde, depois das lições e de cuidar dos animais, Zezinho pôsse a caminhar perto dos pessegueiros carregados de frutos maduros. Colheu um, provou-o e viu que estava doce como mel. Saboreando a deliciosa fruta, observava os galhos das árvores, para ver se encontrava algum ninho. Não viu nada. Levantando as vistas, seu olhar pousou no alto da torre da caixa d’água, que ficava ao lado do pomar, para irrigá-lo. Qual não foi a sua surpresa, quando avistou um pardal começando a construir seu lar, bem no topo da torre.
Ele passou um bom tempo observando como aquela pequena ave buscava gravetos, folhas secas, pedaços de cordões, tudo servia para fazer sua “casinha” bem emaranhada. Zezinho lembrou-se dos sermões do padre Arnaldo e disse para si mesmo:
— Como Deus fez tudo perfeito! Ninguém ensinou aos pardais a construir seu ninho e eles fazem isso com tanta perfeição!
Comeu outro pêssego e decidiu pegar aquele ninho, que lhe trouxera pensamentos tão bonitos. Mas ia deixar passar os dias. Esperaria até que os filhotes já soubessem voar.
Algumas semanas depois, percebeu que ele já estava vazio. Pegou a grande escada e pôs-se a subir. A torre da caixa d’água era muito alta. A escada balançava perigosamente. Ele começou a tremer. Via tudo pequenininho lá embaixo. Estava com medo. Será que devia subir mais? Faltava pouco para alcançar o ninho, um degrau mais e pronto!
Zezinho subiu o último degrau. O céu parecia mais perto. Inclinou muito o corpo, esticou o braço e conseguiu! Mas, ao voltar, um movimento brusco desequilibrou a escada. Ele estava caindo... Com o ninho entre os dedos, lembrou-se que sempre pedia a proteção da Mãe do Céu e gritou:
— Valha-me, Nossa Senhora!
Sentindo o corpo no ar, parecia-lhe que um vento agradável o levava para baixo, suavemente. Assim foi descendo, descendo até alcançar o chão, aonde chegou são e salvo! A escada caiu a seu lado, fazendo grande estrondo!
O capataz, que viera correndo ao ouvir o grito do menino, não podia crer no que via. Era um verdadeiro milagre! Precisava contar à dona Dorotéia e ao senhor Carlos. Eles não iam acreditar no que acabava de ver!
Dirigiram-se todos para a igreja e, diante do padre Arnaldo, Zezinho contou como, tendo invocado Nossa Senhora, Ela veio em seu socorro e o levou até o solo.
A família reunida agradeceu à Virgem Santíssima essa enorme prova de afeto que havia dado a todos, sobretudo ao Zezinho, o qual também A queria tanto. Alguns dias depois, o padre Arnaldo celebrou uma solene Missa de ação de graças, na qual Zezinho teve a alegria de fazer sua Primeira Comunhão.
O menino cresceu cada vez mais devoto de Nossa Senhora e decidiu consagrar-Lhe sua vida, fazendo-se sacerdote e não pregando outra coisa senão a beleza da devoção a Ela.

sábado, 10 de novembro de 2012

Vigiai e orai...

Muito se engana quem pensa que só os maus são espertos. A verdadeira piedade aguça a inteligência, faz desabrochar todas as qualidades do homem, e nos obtém o socorro do Céu.
Na pequena cidade bretã de Tréguier, na França, está sepultado o grande Santo Ivo, sacerdote, venerado como o “Advogado dos Pobres”. Faleceu ele em 1303 e foi canonizado em 1347. Seu túmulo tornou-se centro de peregrinações.
O ano de 1403 — em que se passa nossa história — foi de grande movimentação em Tréguier, todos comemorando com júbilo o primeiro centenário da entrada de Santo Ivo na glória celeste.
Passados os dias de festa, a população local retoma sua vida rotineira. Caía a tarde, dois cavaleiros entram na praça da Catedral e estacam diante de uma ampla casa cuja fachada ostentava uma artística insígnia com o seguinte título: “Pousada Santo Ivo das Duas Espadas”.
— A dona da Pousada está? — pergunta um deles.
— Sim, senhor, é com ela própria que falais. Chamo-me Teresa, às vossas ordens!
— Somos honrados negociantes de pedras preciosas. Queremos hospedagem por alguns dias. Meu nome é Marción e meu sócio se chama Nicanor.
— Sede bem-vindos à terra de Santo Ivo! Vou mandar acomodar vossas montarias e preparar-vos dois belos aposentos e uma boa refeição.
Enquanto atendia assim os dois forasteiros, Da. Teresa examinava-os atentamente. Embora com menos de 35 anos, tinha já uma grande experiência da vida. Com a morte repentina de seu marido, poucos anos antes, assumira corajosamente o comando da Pousada e o cuidado dos oito filhos menores. Habituada, já no primeiro contato, a fazer o “raio-X” das pessoas com as quais tratava, observara bem aqueles “honrados negociantes”, concluindo que seria prudente desconfiar de suas boas intenções.
Por sua vez, os dois recém-chegados examinaram com atenção sua interlocutora e a casa. Os arranjos, o grande crucifixo entronizado no salão, as numerosas imagens da Virgem e dos Santos — tudo ali denotava vida de piedade e devoção.
— Grande negócio à vista, hein, Marción!
— Sim, não falha! Ela é uma “beata”, portanto, deve ser uma tola. O negócio aqui vai ser fácil. Basta sermos bem espertos, cada vez mais espertos, certo?
— Claro! Para os bobos, os sermões e procissões. Para nós, os lucros... Após se instalarem, os dois desceram para o restaurante, onde lhes foi servido um bom jantar. Antes de se recolherem, pediram para falar com a dona da Hospedagem. Disse-lhe Marción:
— Queremos que nos guarde em vosso cofre esta caixa, na qual estão nossas mais valiosas pedras!
— Perfeitamente, temos um cofre forte e seguro.
— Mas, não me tome a mal se pedir uma garantia — insistiu o hóspede.
— Sim, tendes todo o direito. Dizei-me qual deve ser essa garantia.
— Que só entregueis esta caixa a qualquer um de nós na presença do outro, pois este é o único meio de evitar... digamos assim, desavença entre nós dois. É uma importante medida cautelar, para não serdes vós mesma responsabilizada por alguma... alguma má ocorrência, entendeis?
— Entendido! Bom descanso, senhores.
A dona da Pousada foi guardar no cofre a preciosa caixa, os dois hóspedes dirigiram-se para seus quartos.
No dia seguinte, de manhã, pediram a Da. Teresa para trazer-lhes a caixa, retiraram as pedras que julgaram convenientes e saíram para seus negócios. Ao cair da tarde, retornaram satisfeitos e foram juntos solicitar novamente a caixa, na qual depositaram seus valores.
Passou-se assim uma semana, seguindo sempre essa mesma rotina.
Certo dia, Nicanor desceu sozinho, comunicou que desejava pagar as despesas de hospedagem, pois iriam partir para outra cidade. Da. Teresa fez as contas e lhe passou a nota. O comerciante abriu a bolsa e começou a contar moedas de ouro e prata.
— Meu sócio já vai descer. Não podeis já ir buscar a caixa, para entregar quando ele chegar?
Ouvindo os passos do outro no corredor em cima, a hospedeira não hesitou em abrir o cofre, tirar a caixa e depositá-la sobre a mesa. Nicanor, sorridente, pôs-lhe nas mãos a quantia da despesa e pediu um recibo. Da. Teresa foi ao armário, a dois metros, para pegar tinteiro e papel... quando voltou percebeu que estava sozinha na sala.
Em poucos segundos, o “honrado negociante” tinha desaparecido com a valiosa caixa de pedras preciosas!
Logo percebeu ela a armadilha que lhe haviam preparado os dois facínoras: Marción certamente iria reclamar em juízo indenização pela metade das pedras preciosas... Ela talvez tivesse que vender todos os seus bens, ficando reduzida à indigência! Mas a Da. Teresa, mulher de vigilância e de oração, não faltava coragem nem presença de espírito. Ergueu à Protetora dos Cristãos e a Santo Ivo, padroeiro dos advogados, uma ardorosa prece, e traçou num relance seu “plano de combate”.
Entrando na sala, o outro bandido cumprimentou-a sorridente, como de costume, e manifestou surpresa por não ver lá seu sócio.
— É, eu achei estranho... ele saiu de modo inesperado, sem nada dizer, acho que não deve demorar. Enquanto aguardamos sua volta, dai-me licença de ir à cozinha tomar umas rápidas providências.
Dito isto, retirou-se, não para a cozinha, mas para a Capela da Pousada.
De joelhos diante da imagem de Santo Ivo, implorou fervorosamente sua ajuda.
Houve algum milagre? Não se sabe... O certo é que Da. Teresa sorriu e saiu confiante, sentindo uma mensagem gravada em sua alma.
Chamou o capataz da cavalariça e deu-lhe breves explicações, concluindo:
— Sigam, pois, a indicação que me deu Santo Ivo: vão a todo galope pela estrada de Saint-Brieuc, para agarrar o ladrão na Gruta do Trigal, onde estará escondido.
Retornando à sala, disse-lhe Marción, com um sorriso desdenhoso:
— Bem, senhora, já que meu sócio, pelo visto, desapareceu, peço trazer-me a caixa com as jóias, confiada aos vossos cuidados.
— Ah, senhor, isso nunca! Assumi o compromisso de trazê-la apenas quando os dois estejam presentes. Tereis de aguardar a chegada de vosso companheiro.
Por esta o farsante não esperava! Então dessa beata, dessa rezadeira de intermináveis “rogai-por-nós”, quem poderia esperar tamanha sagacidade? Na incerteza, resolveu sondar o terreno:
— Podeis, pelo menos, abrir o cofre, para provar que a caixa lá está?
— Acaso, desconfiais de vosso sócio?...
— Senhora! Não se brinca com um negociante experimentado como eu. Ou abris já o cofre, ou irei imediatamente fazer uma denúncia ao juiz.
— Esperai um pouco mais, senhor, Nicanor logo chegará... trazido pela polícia.
— Polícia?!...
— Isto mesmo! A polícia judiciária partiu a galope para pegá-lo na Gruta do Trigal, onde estaria à vossa espera, conforme havíeis combinado.
Ouvindo isto, o larápio percebeu que todo o plano estava descoberto. Inútil seria qualquer nova artimanha. Deixou-se ficar ali, passivo, aguardando os acontecimentos. Pouco tempo depois, entraram os policiais, trazendo Nicanor bem algemado. Sentindo-se já encarcerado para o resto da vida, Marción só teve força para indagar, confusamente:
— Como?... como descobristes tudo tão depressa?
— Fiz o que Jesus ensinou: vigiei, orei e agi. A verdadeira piedade aguça a inteligência e faz desabrochar todas as qualidades. Sobretudo, nos obtém o socorro do Céu. Rezei a Santo Ivo, ele me atendeu. No calabouço, não vos faltará tempo para meditar sobre vossa má vida. Tirai bom proveito para a salvação de vossa alma.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima - Arautos do Evangelho

Sempre sob a maternal e insondável solicitude da Santíssima Virgem, as Irmãs da Sociedade Regina Virginum não se cansam de abrir novas frentes de evangelização, levando a Imagem de Nossa Senhora de Fátima às famílias dos fiéis da Paróquia Nossa Senhora das Graças.
Como em todos os lugares por onde peregrina, a imagem da Virgem de Fátima percorre e abençoa os lares, derramando sobre todos a abundância de suas misericórdias.







sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O GRANDE PREGADOR

Frei Anselmo era inteligente e preparava seus sermões com esmero. Por onde passava, ia ficando um rastro de conversões e reafervoramento. Um dia, entretanto, suas palavras deixaram de ter efeito nas almas. O que teria acontecido?
 Anselmo e Mário, dois grandes amigos, não podiam ser mais diferentes um do outro, no que diz respeito aos dotes da natureza. O primeiro era talentoso, elegante, rico e de boa família. O segundo, pobre e apagado. Entretanto, por cima de todas essas diferenças, algo os unia estreitamente: ambos eram grandes de alma.
Naquela manhã de domingo, Anselmo comunicava a seu amigo que estava de partida para ingressar como noviço no Convento de São Domingos.
— Quero ser pregador, como bom filho de São Domingos, para converter muitas almas a Cristo e divulgar a devoção do Santo Rosário.
Embora triste, por ver romper-se um convívio de muitos anos, Mário felicitou seu amigo e o incentivou a seguir avante naquela sublime vocação.
— Ficaremos sempre unidos pela oração. Rezarei muito para que sejas um grande pregador santo — respondeu, dando ênfase ao adjetivo santo.
Poucos meses depois, Mário conseguiu um meio de alojar-se também no Convento de São Domingos, onde prestava pequenos serviços à comunidade. E... de vez em quando conversava um pouco com seu estimado amigo, ao qual repetia sempre:
— Rezo sem parar para que sejas um grande e santo pregador!
Chegou, enfim, o esperado dia da ordenação sacerdotal de Anselmo. Seu primeiro sermão arrebatou e comoveu os fiéis. Desviando de vez em quando o olhar dos assistentes, o pregador via Mário num canto da igreja, desfiando discretamente as contas de seu Rosário. “É por mim que ele está rezando!” — pensava, agradecido.
Ao cabo de poucos anos, Frei Anselmo tornou-se um pregador famoso. De todas as partes vinham-lhe solicitações de párocos e bispos.
Além de inteligente e culto, ele preparava com esmero suas pregações. E os bons efeitos eram atestados pelas numerosas conversões e surtos de reafervoramento espiritual em todos os lugares onde se faziam ouvir suas ardorosas palavras.
Mário continuava no convento, onde passou a ser chamado de “Irmão Mário” pelos monges. Homem jeitoso, ele conseguiu um meio de acompanhar Frei Anselmo em todas as viagens, para “cuidar de suas coisas”. E — detalhe curioso! — não perdia um sermão sequer. Lá estava sempre ele, com seu grande Rosário nas mãos, rezando, rezando...
Mas, como fazia Frei Anselmo para arrebatar e converter as multidões?
Numa Sexta-Feira Santa, o Bispo o encarregou de fazer a homilia sobre a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Na Catedral apinhada de fiéis, todos ouviam atentamente. Chegando ao ponto em que o Divino Redentor inclinou a cabeça e expirou, ele fez uma pequena pausa, depois disse estas simples palavras:
— E Deus morreu!...
O respeitoso silêncio foi quebrado por soluços, em muitas faces corriam as lágrimas. A divina tragédia do Filho de Deus morto na Cruz tocara a fundo os corações.
Em outra oportunidade, era noite de Natal. Depois de compor cuidadosamente, na imaginação de seus ouvintes, a cena viva da Gruta de Belém, o grande pregador chamou a atenção para o transcendental acontecimento que ia se dar naquele momento e acrescentou:
— Então, o Filho de Deus se fez Menino e pousou sorridente nos braços de Maria!
Houve na igreja uma explosão de alegria. A emoção tomou conta de homens e mulheres, crianças, adultos e anciãos. Daqueles corações subia para o Deus Menino uma onda de ternura, de afeto e de adoração.
Mais alguns anos decorreram, ao longo dos quais cenas como essas eram habituais na movimentada vida de Frei Anselmo. Por onde ele passava, ia ficando um rastro de conversões, de mudança radical de vida, de fervor renovado.
Até que um dia... Sim, em certo dia de grande solenidade, o famoso pregador subiu ao púlpito e pronunciou as primeiras palavras do sermão enquanto olhava maquinalmente para o local onde costumava colocar-se o bom Irmão Mário. O lugar estava vazio. Onde estaria ele? — perguntou-se, preocupado.
Mas, enfim, Frei Anselmo tinha de preocupar-se com a homilia. Seguiu, pois, em frente. Como sempre, as ideias se formavam com toda clareza em sua mente e suas palavras límpidas e claras ressoavam pela vastidão do imenso templo. Mas — coisa estranha! — nas almas elas não ecoavam. Esforçou-se mais o pregador, pondo em jogo os imensos recursos de sua arte oratória para mover aqueles corações a uma atitude interior de fé e de piedade... Em vão!
O que teria acontecido?
Terminada a Missa, Frei Anselmo retornou ao Convento e perguntou ao porteiro:
— Onde está o Irmão Mário?
— Faleceu há cerca de meia hora. Seu corpo está na cela, ainda quente.
Após rezar junto ao corpo sem vida de seu velho e fiel amigo, o pregador quis saber o motivo dessa morte, tão inesperada para ele. O Padre Reitor explicou-lhe:
— Nos últimos meses o Irmão Mário dava indícios de estar gravemente enfermo, mas se recusava a descansar, alegando sempre que precisava “cuidar das coisas do Frei Anselmo”.
— Mas, o que mais fazia ele?
— Muitas orações! Rezava incansavelmente. Quando alguém lhe perguntava para quem eram tantas orações, ele respondia apenas: “Nossa Senhora sabe”.
— Ele era um santo — comentou Frei Anselmo, comovido.
— E muito...
O grande pregador continuou sua vida de intenso apostolado, mas sentia que tinha havido uma grande e inexplicável mudança. Preparava com o máximo de esmero seus sermões. As palavras fluíam-lhe dos lábios com abundância e clareza. Os fiéis o escutavam com agrado. Porém, não davam demonstração alguma de contrição, nem de fervor.
Algo havia desaparecido. O que seria?
Na Missa solene da festa de São Domingos, Frei Anselmo falava... falava... para ouvidos atentos mas corações fechados. Em certo momento, calou-se, como que tocado por uma visão, e começou a empalidecer. Alguns assistentes o ampararam e levaram para a sacristia. Ali mesmo, ouviu de um médico este diagnóstico:
— Estafa grave, Padre. O senhor precisa mudar de ares, repousar.
Esboçando leve sorriso, Frei Anselmo respondeu:
— Não... Não, nada disso! É ele... com suas intermináveis orações! A causa de todas aquelas conversões era ele, meu pobre amigo! Levem-me ao túmulo do Irmão Mário.
Lá chegando, o famoso pregador chorou longamente, humilhado, sim, mas convertido. Afinal, iluminado pela graça, havia compreendido que todo o êxito de seus sermões se devia, não à sua brilhante oratória, mas às fervorosas orações do humilde Irmão Mário.
Como uma benfazeja torrente de luz, vieram-lhe à mente as recordações de seus estudos sobre o indispensável papel da graça para mover as almas à conversão. Sim, os discursos mais lógicos, mais brilhantes são incapazes de suscitar qualquer bom movimento de alma. Quem converte é Deus, pela graça. E esta se obtém pelas orações, através da Virgem Santíssima.
Agora Frei Anselmo via com clareza a importância do Irmão Mário, o simples, o apagado... o poderoso Irmão Mário! Permaneceu durante várias horas diante do seu túmulo, rezando serenamente. Aproximando-se dele, o Padre Reitor lhe perguntou:
— Então, pedindo ao bom Irmão Mário o restabelecimento da saúde?
— Não, Padre Reitor, pedindo a virtude da humildade! — respondeu o grande pregador, levantando o rosto marcado pelos sulcos das lágrimas.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Oração a Jesus Sacramentado

Senhor meu Jesus Cristo, que, por amor aos homens, ficais dia e noite neste Sacramento, todo cheio de misericórdia e amor, esperando, chamando e acolhendo todos os que vêm visitar-Vos, eu creio que estais presente no Sacramento do altar. Adoro-Vos do abismo do meu nada e agradeço-Vos todas as graças que me tendes feito, especialmente a de Vos terdes dado a mim neste Sacramento, a de me haverdes concedido por advogada Maria, vossa Mãe Santíssima, e finalmente, a de me haverdes chamado a visitar-Vos nesta igreja.
Saúdo hoje o vosso Coração amantíssimo e quero saudá-lo por três fins: primeiro, em agradecimento pelo grande dom de Vós mesmo; segundo, em reparação das injúrias que tendes recebido, neste Sacramento, de todos os vossos inimigos; terceiro, com a intenção de Vos adorar, por esta visita, em todos os lugares da Terra onde Vós, neste divino Sacramento, estais menos reverenciado e mais abandonado.
Meu Jesus, amo-Vos de todo o meu coração. Arrependendo-me de, no passado, ter ofendido tantas vezes a vossa bondade infinita. Proponho, com a vossa graça, não mais Vos ofender no futuro. E nesta hora, embora miserável como sou, eu me consagro todo a Vós e Vos dou e entrego a minha vontade, os meus afetos, os meus desejos e tudo o que me pertence. Daqui em diante fazei de mim, e de tudo o que é meu, o que Vos aprouver. Somente Vos peço e quero o vosso santo amor, a perseverança final e o perfeito cumprimento da vossa vontade.
Recomendo-Vos as almas do Purgatório, especialmente as mais devotas do Santíssimo Sacramento e da Santíssima Virgem Maria. Recomendo-Vos também todos os pobres pecadores. Enfim, meu amado Salvador, uno todos os meus afetos aos afetos do vosso Coração amantíssimo e, assim unidos, eu os ofereço a vosso Eterno Pai, pedindo-Lhe, em Vosso nome e por vosso amor, que Se digne de os aceitar e atender. Assim seja.
Santo Afonso Maria de Ligório – Oração para antes da Visita ao Santíssimo Sacramento

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Um prodigioso esquecimento

Eram duros os tempos das primeiras missões evangelizadoras da América do Norte. Muitos habitantes daquelas terras não conheciam a Religião de Cristo e os apóstolos eram em número insuficiente para levar a todas as almas a verdadeira Fé. “ A messe é grande, mas os A operários são poucos” (Mt 9, 37), diz a Escritura. Mas, gradualmente, com o auxílio da graça, a Santa Igreja ia-se estabelecendo naquelas vastidões territoriais, como a gota de azeite se espalha silenciosamente pela folha de papel.
No povoado de Santa Maria dos Anjos, onde já todos eram católicos fervorosos, exercia seu fecundo apostolado o padre Jorge. Levantava-se de madrugada, passava uma hora de adoração a Jesus Hóstia e em seguida celebrava a Santa Missa. Hauria, assim, as forças para a labuta de cada dia. Cuidava da catequese das crianças e dos adultos, dirigia a escola e o hospital local, administrava os sacramentos, visitava os enfermos de toda a região.
Certo dia, chamaram-no para atender um doente em estado grave, que morava bem longe do povoado. O Sol já estava baixando, não tardaria a anoitecer. O pároco aprontou-se rapidamente, pegou os Santos Óleos para a Unção dos Enfermos e preparou tudo para levar o Santo Viático.
Valério, o sacristão, ofereceu-se para acompanhá-lo, pois a viagem era longa e não isenta de perigos, mas o sacerdote achou melhor que ele ficasse, para cuidar da igreja. Ele então selou o cavalo e ajudou o padre Jorge a montar, já com o Santíssimo Sacramento numa pequena teca, que levava dependurada ao pescoço, dentro de uma delicada bolsa.
Fustigando a montaria para acelerar a marcha, o pároco percorreu em pouco tempo vários quilômetros. Mas... aconteceu o inesperado: desabou um forte temporal, as escuras nuvens e o aguaceiro toldavam as últimas réstias de luz do Sol que ainda iluminavam aquela estrada cheia de acidentes e obstáculos. E o padre viu-se obrigado a parar numa pequena hospedaria, muito simples, mas limpa e ordenada.
Curiosamente, ali se abrigara, forçado também pela tempestade, um mensageiro do enfermo, enviado para comunicar-lhe que este dava sinais de recuperação e, portanto, já não era tão urgente a ida do sacerdote.
Tranquilizado por essa notícia, o padre Jorge tomou essa coincidência como um sinal da Providência e decidiu pernoitar ali, para não expor o Santíssimo Sacramento aos numerosos riscos de uma viagem sob a borrasca.
Ocupou um quarto no segundo andar, onde preparou da melhor forma possível um pequeno armário para servir de tabernáculo. Nele depositou a Sagrada Hóstia, pôs-se de joelhos e rezou durante algum tempo, depois trancou a porta e desceu para o refeitório, onde já estava servido o jantar.
Ali foi informado, em conversa com outros hóspedes, que o dono do hotel e sua família eram pagãos. Por prudência, evitou tudo quanto pudesse revelar que ele levava consigo Nosso Senhor Sacramentado e, terminada a refeição, recolheu-se sem demora ao seu quarto-capela, preparando-se para partir cedinho no dia seguinte.
Quando raiou o Sol, estava já ele a cavalo, para reiniciar sua viagem.
No meio do caminho, levou instintivamente a mão ao peito para sentir a presença do Santíssimo Sacramento e percebeu que a preciosa teca não estava aí! Encomendando-se à Santíssima Virgem, fez meia-volta, esporeou o animal e partiu de volta a todo galope.
Cruzando o portal da hospedaria, o padre Jorge saltou da cavalgadura e correu à procura do hoteleiro:
— Senhor, desculpe, mas alguém mais ocupou o quarto em que pernoitei?
Surpreso, ele lhe respondeu:
— Não, senhor padre. E que bom o senhor ter voltado, porque, desde a sua partida, fizemos de tudo para abrir a porta daquele quarto e não conseguimos. O que fez o senhor para deixar a chave emperrada na fechadura de maneira que ninguém consegue girá-la?
Impressionado, o sacerdote disse:
— Nada. Apenas deixei lá a chave...
— É, mas além de não conseguirmos abrir a porta, vê-se pelas frestas que o quarto está iluminado por uma luz desconhecida. O senhor deixou alguma vela acesa ali?
O piedoso sacerdote, que já tinha passado da terrível apreensão para a tranquilidade, foi invadido por uma grande alegria: essa luz só podia ser fruto de um milagre. Teriam os Anjos do Céu vindo fazer companhia a Jesus Sacramentando, protegendo-O de qualquer sacrilégio ou mesmo de simples irreverências?
— Vamos lá. Vou tentar abrir a porta.
E subiu rapidamente as escadas. O hoteleiro seguiu atrás, acompanhado da esposa, dos filhos, dos criados e até de vários hóspedes, todos desejosos de desvendar aquele mistério.
Lá chegando, padre Jorge girou a chave e abriu a porta com toda facilidade. Imaginem sua emoção ao ver que daquele armário — o tabernáculo por ele improvisado — saía uma luz celestial, enquanto músicas angelicais se faziam ouvir dentro do quarto.
Pondo-se de joelhos, adorou, comovido ao extremo, o Rei dos reis que quis manifestar-Se daquela maneira para atrair mais almas a Seu Sacratíssimo Coração Eucarístico.
Em seguida, explicou a todos o que se passara. Entre atônitos e maravilhados, foram-se ajoelhando um a um... Agora nenhum deles duvidava da Presença Real de Jesus na Eucaristia! O hoteleiro pediu para receber o Batismo, junto com toda a sua família.
O padre Jorge não podia abandonar essas almas que o próprio Senhor conquistara por meio de tão prodigioso fato! Passou, pois, alguns dias no hotel, ensinando-lhes as belezas e as verdades da Fé Católica. Durante esse tempo, a Sagrada Eucaristia permaneceu no seu precário tabernáculo, recebendo a adoração do hoteleiro, de sua família e de vários habitantes da região. Muitos destes também se converteram, de modo que o padre Jorge teve a alegria de ministrar o Batismo a uma pequena multidão de novos filhos da Santa Igreja.
Por fim, foi à casa do enfermo que, uma semana antes, havia solicitado sua assistência, e o encontrou já curado. O Senhor quis, Ele mesmo, operar prodígios em favor de sua messe!

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Um incêndio providencial

Edgard levantou-se muito contente naquela manhã. Seu novo barco de pesca, recém-saído do estaleiro, prometia-lhe um proveitoso dia de trabalho. E o tempo estava perfeito para essa estreia. O céu amanhecera azul, com algumas nuvens, é verdade, mas estas acabariam por dar-lhe um pouco de proteção contra o Sol. As redes estavam limpas e bem dobradas. O delicioso aroma do café da manhã, cuidadosamente preparado por Adelaide, sua esposa, convidava-o a se apressar.
Saiu de casa logo depois da refeição matinal. Enquanto se afastava rumo à praia, via Luísa e Marcelo, que davam adeus ao pai, ufano de seu barco novo. Esperava regressar com muitos peixes e fazer bom negócio na feira semanal do dia seguinte, à qual afluía gente de toda a vizinhança.
Fazendo o sinal-da-cruz e beijando sua medalha da Virgem do Carmo, da qual nunca se separava, Edgard levantou âncora e zarpou. Assobiava contente, enquanto manejava com destreza o timão de seu pesqueiro.
Não demorou a entrar numa zona bem conhecida pela quantidade de peixes. Mas... coisa estranha! Não encontrou ali nenhum de seus amigos pescadores. Por mais que procurasse, não via um barco sequer. Desconfiando de alguma surpresa desagradável, perscrutou o céu em todas as direções. O tempo continuava firme, com algumas nuvens espessas apenas. Não lhe pareceu haver sinal de chuva.
Lançou as redes. Curioso... Não havia peixes...
— Que estará acontecendo? — perguntou ele, falando sozinho.
O mar logo lhe deu uma resposta: as águas começaram a se mover com mais força, as nuvens espessas se avolumaram rapidamente, escurecendo o céu. Nunca ele vira uma tempestade armar-se tão de repente!
— É por isso que não havia peixes!... — disse para si mesmo.
Marujo destemido e experiente, Edgard não se alarmou. Acionou o motor e tentou dirigir o barco de volta à praia. Porém este não obedecia mais aos movimentos do timão, as ondas cada vez mais fortes o arrastavam em sentido contrário. Nesse momento, viu passar pouco além seu amigo Luís, pescador também, que avançava penosamente rumo à terra firme e lhe gritava:
— Edgard! Meia volta! A tempestade vai ser tremenda...
Quase não conseguia ouvir... O vento estava muito forte. Usou toda a sua perícia para tomar a direção certa, mas inutilmente: o barco vogava como se não tivesse leme e a correnteza o afastava mais e mais da terra firme. Uma chuva torrencial veio agravar ainda mais a situação.
Na iminência de uma tragédia inevitável, Edgard se encomendou à Virgem Santíssima. Nada mais podia fazer, senão rezar. Batido por uma grande onda, o barco girou violentamente, Edgard sentiu um forte golpe e caiu sem sentidos.
Quando voltou a si, encontrava-se numa praia. Estava meio tonto, latejava-lhe a cabeça, doía-lhe todo o corpo. Com muito custo pôs-se de pé, olhou ao redor e pareceu-lhe estar em alguma ilha desconhecida. De seu barco, viu apenas alguns destroços espalhados pela praia.
A quem pedir ajuda? Só lhe restava recorrer ao Céu. Tirou do pescoço sua medalha da Virgem do Carmo, ajoelhou-se e rezou fervorosamente.
Depois dessa oração, sentiu revigorarem-se suas forças. Caía a tarde. Recolheu o que restava do barco e fez uma cabaninha, cobrindo-a com folhas de palmeira, para proteger-se do frio durante a noite.
Na manhã seguinte, foi despertado pelo ruído de um bando de alegres gaivotas que pescavam. Sentia muita fome e não havia nada para comer. Resolveu explorar “sua” ilha à procura de frutas.
Andou, andou, andou... Não achou nada que levar à boca, mas reconheceu o local onde se encontrava: era uma ilha rochosa e desértica, que não estava na rota de nenhum barco pesqueiro, muito menos de algum navio.
O Sol estava mais alto no céu e a fome aumentava! Decidiu pescar. Encontrou entre os escombros do barco um pedaço de linha e outro de arame com os quais improvisou um anzol, e pronto... o restante era questão de habilidade. Com isso e alguns moluscos servindo de isca, não lhe foi difícil arrastar quatro peixes para a terra firme.
Após várias tentativas fracassadas, conseguiu fazer fogo junto à cabana, em um dos lados protegido do vento. Assou dois peixes grandes, temperados com o sal do mar. Pareceram-lhe deliciosos, melhores, até, que os que sua esposa, Adelaide, preparava tão bem.
Depois de saciada a fome, resolveu explorar o outro lado da ilha. Quem sabe se avistaria algum barco...
Caminhou muito, subiu e desceu rochedos, mas a certa altura sentiu um forte cheiro de queimado. Cheio de desconfiança pelo que estaria acontecendo, correu aflito de volta à praia. Lá chegando, viu a cabana toda queimada e uma coluna de fumaça que subia de um monte de folhas secas atingidas pelas chamas.
Edgard, que até então se mantivera forte, não aguentou mais. Sentou-se na areia, com a cabeça entre as mãos, e não conseguiu conter o desânimo e as lágrimas. Havia pedido ajuda aos Céus e Deus parecia tê-lo abandonado!
Por fim, cansado de toda a tensão daquele dia, adormeceu ali mesmo na praia, sob o Sol inclemente da tarde. Quanto tempo dormiu, ninguém sabe. Foi acordado por alguém que lhe tocava o braço e o chamava:
— Edgard!
Era Luís, seu amigo pescador. Levantando-se de um salto, Edgard o abraçou e disse:
— Luís! Como chegou até aqui? Esta ilha não é rota de barcos...
— Depois que passou a tempestade, lancei-me de novo ao mar, decidido a encontrá-lo. Procurei sem resultado por todos os nossos rincões conhecidos, e já estava voltando, pois a tarde está chegando ao fim e no escuro seria impossível prosseguir a busca. Inesperadamente, vi uma coluninha de fumaça subindo por detrás desses rochedos. Deixei o barco ancorado e vim a nado, pois não é possível navegar por entre essas pedras. Vamos, homem, dentro em pouco será noite, e sua família o espera!
No percurso de volta a casa, Edgard meditava com profunda gratidão sobre a maneira pela qual a Virgem Santíssima levara até Deus suas preces: aquele incêndio, que lhe parecera a desgraça completa, havia salvado sua vida!
* * *
Às vezes, Deus age assim conosco, parecendo ter Se esquecido de nós. Mas Ele permite a aparente derrota, ou mesmo a desgraça, para daí tirar um bem maior. Portanto, ainda que não entendamos, confiemos, pois Ele nunca nos abandona! Há males que vêm para bem!