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terça-feira, 31 de julho de 2012

A Virgem Maria elevou-se aos céus

Quanto mais o homem procura aprofundar-se no conhecimento de Deus, mais compreende que não conseguirá abarcá-Lo, tais as grandezas e os mistérios com os quais se depara.
O Criador, que estabelece as regras, se apraz em criar magníficas exceções. Três criaturas não podiam ser criadas em grau mais excelente, ensina-nos a Teologia. A primeira delas é Jesus Cristo, Homem-Deus: impossível ser mais perfeito, nada haveria a acrescentar. A segunda, Maria: “quase divina”, é a expressão utilizada por vários teólogos para se referir à Mãe do Redentor. E, por fim, a visão beatífica, o Céu: o prêmio reservado aos justos não poderia ser melhor nem maior. É o próprio Deus que Se dá aos Bem-aventurados!
Por que morreu a Mãe da Vida?
Em Maria Santíssima está a plenitude de graças e de perfeições possíveis a uma mera criatura. Segundo a bela expressão de Santo Antonino, “Deus reuniu todas as águas e chamou-as mar, reuniu todas as suas graças e chamou-as Maria”. Desde toda a eternidade, o decreto divino estabelecia o singularíssimo privilégio de ser a Virgem Santíssima concebida livre da mancha original. Privilégio este próprio Àquela que geraria em seu seio o próprio Deus.
Transcorrida sua vida nesta terra, o que aconteceria com nossa Mãe? Ela, que havia dado à luz, alimentado e protegido o Menino-Deus, e recebido em seus braços virginais o Corpo dilacerado de seu Filho e Redentor, estava prestes a exalar o último suspiro. Como poderia passar pelo transe da morte aquela Virgem Imaculada, nunca tocada pela mais leve sombra de qualquer falta?
Sem embargo, como o suave declinar do sol num magnífico entardecer, a Mãe da Vida rendia sua alma. Por que morria Maria? Tendo Ela participado de todas as dores da Paixão de Jesus, não quis deixar de passar pela morte, para em tudo imitar seu Deus e Senhor.
De que morreu Maria?
Perfeitíssima era a natureza da Virgem Maria. Com efeito, afirma Tertuliano que “se Deus empregou tanto cuidado ao formar o corpo de Adão, pela razão de seu pensamento voar até Cristo, que deveria nascer dele, quanto maior cuidado não terá tido ao formar o corpo de Maria, da qual devia nascer, não de modo remoto e mediato, mas de modo próximo e imediato, o Verbo Encarnado?” (1)
Ademais, escreveu Santo Antonino, “a nobreza do corpo aumenta e se intensifica em proporção com a maior nobreza da alma, com a qual está unido e pela qual é informado. E é racional, pois a matéria e a forma são proporcionadas uma à outra. Sendo, portanto, que a alma da Virgem foi a mais nobre, depois da do Redentor, é lógico concluir-se que também seu corpo foi o mais nobre, depois do de seu Filho” (2).
À alma santíssima de Maria, concebida sem pecado original e cheia de graça desde o primeiro instante de sua existência, correspondia, portanto, um organismo humano perfeitíssimo, sem o menor desequilíbrio.
Em consequência de sua virginal natureza, Nossa Senhora foi imune a qualquer doença, e jamais esteve sujeita à degenerescência do corpo causada pela idade .
De que morreu, pois, a Mãe de Deus?
O termo da existência terrena de Maria deveu-se à “força do divino amor e ao veemente desejo de contemplação das coisas celestiais, que consumiam seu coração” (3).
A Santíssima Virgem morreu de amor!
São Francisco de Sales assim descreve esse sublime acontecimento:
“Quão ativo e poderoso (...) é o amor divino! Nada de estranho se vos digo que Nossa Senhora dele morreu, pois, levando sempre em seu coração as chagas do Filho, padecia-as sem consumir-se, mas finalmente morreu pelo ímpeto da dor. Sofria sem morrer, porém, por fim, morreu sem sofrer.
“Oh, paixão de amor! Oh, amor de paixão! Se seu Filho estava no Céu, seu coração já não estava n’Ela. Estava naquele corpo que amava tanto, ossos de seus ossos, carne de sua carne, e ao Céu voava aquela águia santa. Seu coração, sua alma, sua vida, tudo estava no Céu: por que haviam de ficar aqui na terra?
“Finalmente, após tantos vôos espirituais, tantos arrebatamentos e tantos êxtases, aquele castelo santo de pureza e humildade rendeu-se ao último assalto do amor, depois de haver resistido a tantos. O amor A venceu, e consigo levou sua benditíssima alma” (4).
Essa morte de Maria, suave e bendita como um lindo entardecer, a Igreja a designa pelo sugestivo nome de “dormição”, para significar que seu corpo não sofreu a corrupção.
Cheia de graça e cheia de glória
Quanto durou a permanência do puríssimo corpo de Maria no sepulcro?
Não o sabemos. Mas, segundo a tradição, muito pouco tempo esteve a alma separada de seu corpo. E, na Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, afirma o Papa Pio XII: “Por um privilégio inteiramente singular, Ela venceu o pecado com sua Conceição Imaculada; e por esse motivo não foi sujeita à lei de permanecer na corrupção do sepulcro, nem teve de esperar a redenção do corpo até o fim dos tempos”.
Assim, resplandecente de glória, a alma santíssima de Nossa Senhora reassumiu seu virginal corpo, tornando-o completamente espiritualizado, luminoso, sutil, ágil e impassível.
E Maria — que quer dizer “Senhora de Luz” — elevou-se em corpo e alma ao Céu, enquanto as incontáveis legiões das milícias angélicas exclamavam maravilhadas ao contemplar sua Soberana cruzando os umbrais eternos: “Quem é esta que surge triunfante como a aurora esplendorosa, bela como a lua, refulgente e invencível como o sol que sobe no firmamento e terrível como um exército em ordem de batalha?” (5).
E ouviu-se uma grande voz que dizia: “Eis aqui o tabernáculo de Deus” (Ap 21, 3).
A Filha bem-amada do Pai, a Mãe virginal do Verbo, a Esposa puríssima do Espírito Santo foi coroada, então, pelas Três Divinas Pessoas para reinar no universo, pelos séculos dos séculos, “à direita do Rei” (Sl 44, 10).
O dogma
A verdade desta glorificação única e completa da Santíssima Virgem foi definida solenemente como dogma de Fé pelo Papa Pio XII, no dia 1º de novembro de 1950, com estas belas palavras:
“Depois de termos dirigido a Deus repetidas súplicas, e de termos invocado a luz do Espírito de verdade, para a glória de Deus onipotente que à Virgem Maria concedeu sua especial benevolência, para a honra de seu Filho, Rei imortal dos séculos e triunfador do pecado e da morte, para aumento da glória de sua augusta Mãe e para gozo e júbilo de toda a Igreja, com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos Bem-aventurados Apóstolos São Pedro e São Paulo e com a Nossa, pronunciamos, declaramos e definimos que: A Imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial”.
1) De resurrectione carnis, c. VII.
2) Cfr. Gabriel Roschini, Instruções Ma
3) D. Alastruey, Tratado de la Virgen Santísima, p. 414. tas, B.A.C., p. 480. rianas, Ed. Paulinas, São Paulo, p. 202.
4) São Francisco de Sales, Obras Selec
5) Cfr. Cant 6,10

sábado, 5 de maio de 2012

Igreja e o trabalho

Mais do que o lugar em que as almas dos fiéis são atraídas para o culto a Deus, a igreja é a forja na qual se tempera a vida espiritual de cada missionário, dourada pelos raios divinos da graça e enrubecida pelo sofrimento que faz sangrar a alma ou o corpo, nas grandes imolações e nos gloriosos triunfos da vida interior. 


No altar a imagem de Maria sorri aos aflitos e aos pecadores, ostentando-lhes seu Coração Imaculado, como promessa de perdão e de socorro. E assim são atraídas por uma devoção que é característica de nossa Fé, devoção que constitui em si mesma um modelo primoroso de delicadeza e de elevação moral.
Realmente, é na oração do templo, é na meditação, é no estudo, é no recolhimento da vida interior, que a Fé se firma e adquire aquele vigor, aquela extensão, aquela firmeza necessária para projetar seus princípios sobre os setores da atividade material e moral dos homens. É no templo, pois, com o auxílio da graça de Deus, que as almas se formam, que as inteligências se iluminam, que as vontades se temperam, e que o fruto do trabalho interior floresce em permanentes resoluções salutares. Em seguida, essas ideias acumuladas pela vida interior e tornadas ardentes pelo zelo, tendem a se difundir de modo benéfico sobre todas as criaturas.
E vem então o trabalho, que, posto ao serviço da contemplação e do estudo, é o canal pelo qual as maravilhas operadas por Deus nas almas se derramam em torrente benéfica sobre a humanidade.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Por que os bons sofrem e os maus são premiados?

Os pecados e extravios da humanidade chegaram a um ponto inimaginável e, contudo, observando-se a atitude de Deus para com os homens na vida corrente — protegendo a uns contra a infelicidade e permitindo que ela aconteça a outros — parece, às vezes, que há uma inversão de papéis.
Com frequência, vê-se que o indivíduo iníquo, fraudulento, adúltero ou ladrão é bem sucedido nos seus negócios, nas suas amizades, na sua saúde, dando a idéia de que o pecador sofre pouco nesta Terra. Pelo contrário, analisando-se a existência do homem justo, não raro se verifica que desgraças de toda ordem se abatem sobre ele.
De maneira que, quanto aos bons, para os quais se esperaria um atendimento especialmente solícito, dirse-ia haver uma retração de Deus; e para os maus, o Criador concederia — ou permite que o demônio lhes alcance — tudo para terem uma vida feliz.
Em suma, Deus não impede que os bons sejam provados e sofram de um modo especial, nem que as coisas agradáveis se passem com os maus, quase que recompensados nesta Terra por atos merecedores de castigos. Por quê?
Santo Agostinho o explica de forma luminosa, perguntando-se exatamente qual seria o motivo de os justos não serem premiados nem os maus punidos neste mundo. E responde:
Dados o pecado original e as misérias do homem, se as pessoas ordinárias soubessem que seriam felizes se fossem boas, e infelizes se ruins, por venalidade e interesse elas praticariam o bem e não o mal. Porém, não haveria nisso nenhum amor a Deus, nenhuma adesão à virtude pela virtude, nenhuma aversão à maldade pela maldade. Por exemplo, uma mulher de péssimos costumes evitaria seus desmandos e seria casta, somente porque essa conduta lhe traria uma existência mais aprazível.
Diante dessas circunstâncias, tornar- se-ia quase impossível conduzir esta vida de maneira a diferenciar os bons dos maus, e fazer com que os primeiros provassem seu amor a Deus, e os segundos, pelo contrário, deixassem ver sua infâmia.
Ora, premiando o mau (ou ao menos permitindo que tudo de agradável lhe aconteça), e levando os bons em meio a dificuldades, Deus deixa patente o fato de que os justos seguem os mandamentos d’Ele porque O amam, e não por uma venalidade de oportunistas. A verdadeira virgem não o é por um cálculo de felicidade, e sim porque ama a virgindade. E quem se prostitui, o faz porque é vil e só deseja as vantagens terrenas.
Se assim não fosse, a vida seria incompreensível neste mundo. Ao contrário, dessa forma ela se torna inteligível e acabamos por saber quem é bom e quem é mau. Bons, aqueles que amam a virtude, vão de encontro à dor e dela se revestem como Nosso Senhor Jesus Cristo se deixou revestir da túnica com que depois foi torturado. Maus, os que correm atrás do prazeroso, e geralmente só lhes sobrevêm coisas agradáveis porque são ordinários.
Considerada assim, a felicidade seria quase um sinal do qual se deve suspeitar. Quer dizer, quando tudo é propício a alguém, tomemos cuidado, pois algo de bem pode lhe estar faltando. Por outro lado, ao vermos um coitado a quem sucede tudo de mau, examinemo-lo com simpatia e respeito, pois, embora o infortúnio não represente um signo inequívoco de virtude, é provável que o bem esteja do lado dele.*
Cf  Revista Dr Plinio 78

As irmãs da Sociedade de Vida Apostólica visitam um lar para idosos levando a imagem de Nossa Senhora de Fátima e palavras de esperança.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Comentários ao Salmo 31

Porque me calei, os meus ossos envelheceram, enquanto eu clamava todo o dia.
Trata-se aqui daquele que pecou e calou a sua falta. Quer dizer, não contou a Deus, não confessou o que fez. Em razão dessa indiferença, desse afastamento em relação a Deus, ele foi se ressecando, debilitando, definhando.
Nesse versículo há também um sentido peculiar que merece atenção: o pecador “clamava todo o dia”, mas entretanto se calou. O que podemos interpretar como tendo ele contado seu pecado a algum amigo, parente ou conhecido, não porém Àquele a quem importava revelar, isto é, a Deus Nosso Senhor.
Naquela época, a Igreja Católica não estava fundada, pois os Salmos datam de séculos anteriores a Jesus Cristo. Entretanto, uma vez instituída a Santa Igreja, o personagem por excelência com quem se deve falar é o confessor. Pecou, declare ao padre — representante de Deus e da Igreja — a sua falta e peça perdão.
Mas, se a pessoa não recorre ao tribunal da penitência, não declara o mal que praticou, mantendo-se afastada dos Sacramentos, seus ossos secam dia e noite, e sua alma vai decaindo. Pelo contrário, como adiante se verá, quando ela fala a Deus, ou seja, ao confessor, a sua alma refloresce.
Porque a tua mão tornou-se pesada sobre mim de dia e de noite...
Deus castigou esse homem, porque não tinha confessado. Então, noite e dia, para conduzi-lo à penitência, o punia.
... eu revolvia-me na minha dor, enquanto mais se cravava o espinho.
Ele se remexia no seu sofrimento, e o espinho, que é a consciência do pecado cometido e não declarado a Deus, aprofundava a chaga causada pela falta. É o resultado da impenitência do indivíduo que não quer se humilhar diante de Nosso Senhor.
Inclinando-se diante de Deus
Eu Te manifestei o meu pecado, e não ocultei a minha injustiça. E disse: Confessarei ao Senhor, contra mim mesmo, a minha injustiça...
Afinal, ele falou, confessou a Deus seu pecado. É a declaração dele:
“Comparecerei diante do Senhor e falarei contra mim mesmo. Reconheço o quanto minha falta é censurável porque ofende os vossos Mandamentos. E a malícia, ó Deus, dos atos que pratiquei, também está diante de mim. E dói-me, envergonha- me ter cometido esse pecado. Aos vossos pés, meu Senhor, falo mal de mim, me inclino e peço perdão.”
Este, verdadeiramente, é o ato regenerador. Enquanto o faltoso não toma essa atitude de penitência e humildade, reconhecendo-se indigno de estar na presença de Deus e de que sobre ele pouse o olhar infinitamente santo do Altíssimo, do qual tem vontade de fugir — ele fica posto de lado, revolvendo-se na sua dor.
Porém, se proceder como deve, e dizer: “Senhor, eu pequei. Essa ação que cometi é contrária à vossa Lei santíssima, lindíssima, boníssima, superior a todo o louvor. Foi contra ela que me revoltei. Sou, portanto, alguém que nada vale. Mas, envergonho- me e suplico que me perdoeis” — ele terá feito a confissão.
... e Tu perdoaste a malícia do meu pecado.
Todo pecado tem uma maldade intrínseca, e por isso o Salmista declara a Deus: “Meus pecados têm malícias, e quando os confessei a Vós, percebi a maldade de cada um deles.”
Por isso orará a Ti todo [homem] santo, no tempo oportuno.
O homem que assim reza, começa a se tornar santo. É como o dia que principia a nascer e o sol pousa sobre o pecador. Ele é chamado pela primeira vez de santo, porque confessou sua culpa.
Cumpre notar que a palavra “santo” não significa possuir o pecador a santidade de quem praticou as virtudes teologais e cardeais em grau heróico, mas que ele se encontra em estado de graça, é amigo de Deus.
Então o homem que confessou sua falta é justo, e no tempo oportuno rezará a Deus.

Revista Dr Plinio 78

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Meios para vencer a batalha da santificação

A prece verbal ou mental, particular ou litúrgica, não constitui o fim da vida espiritual. Este fim é a santificação, isto é, a morte à nossa natureza decaída e nossa reedificação em Jesus Cristo (Rom. 6, 3-11). Mas a prece é um meio eficaz para dotar o católico de maiores recursos para o combate interior. O auxílio divino, porém, é concedido segundo a reta intenção de quem pede, em qualquer espécie de prece.
Assim também os sacramentos, embora contenham objetivamente a graça, e sejam por aí um recurso certo, de nada servem sem a correspondência interior de quem os recebe. Da mesma forma, o Santo Sacrifício da Missa é uma torrente caudalosa de graças, mas a maior ou menor recepção delas, com maior ou menor aproveitamento, depende essencialmente das disposições interiores dos assistentes.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A oração tudo vence

 Louis Veuillot escreveu o livro Parfum de Rome, onde reúne notas sobre uma de suas viagens à Cidade Eterna, que até 1870 esteve sob o poder temporal do Papado.
Diário de uma alma em busca da virtude
Nessa obra lemos este trecho, muito bonito, por diversas vezes objeto de meus comentários:
Num quarteirão deserto, nos muros de uma igreja, Enrico [é o próprio Veuillot], copiou e traduziu para mim as inscrições seguintes, traçadas a lápis por uma mão firme e exercitada [portanto, é um anônimo que escrevia isto]: ‘No dia 14 de setembro eu me encontro com má saúde por minha culpa, pela inquietação e pela desobediência. A partir deste momento, onze horas da manhã, decidi, com a ajuda de Deus e de Maria Santíssima, não mais me atormentar, e recuperar a verdadeira paz. São José, rogai por nós. Um mês depois: 14 de outubro. Até este momento ainda não consegui, ou melhor, não obtive o que escrevi no dia 14 de setembro, mas agora decidi fazer tudo.”
Sabemos que, nos primórdios de nossa vida espiritual, geralmente sucede isto: tomamos uma decisão e nos convertemos. Após um mês, fazemos exame de consciência e verificamos que quase nada progredimos. Então resolvemos cumprir todos os propósitos estabelecidos anteriormente, como manifestou a pessoa à qual o texto se refere.
“Dia 15 de novembro: renovo tudo aquilo que prometi, a fim de chegar a executá-lo. Dia 23 de novembro: falhei, mas prometi a mim mesmo, com toda a alma, de executar.Dia 28 de novembro: decidi ser bom. Dia 31 de dezembro: quero obedecer sempre, para agradar Maria Santíssima até a morte. 28 de janeiro: não há mais inquietação, por amor a Maria Santíssima, e renovo hoje aquilo que tinha deliberado no dia 1º de janeiro. Dia 1º de março: Não. As inquietações cessaram. Dia 29 de março: Não mais me atormentar, não mais pecar.
Nas duas últimas datas, a inscrição está rodeada de um desenho que representa duas palmas formando uma cruz. Devo confessar que estas declarações, feitas ingenuamente por uma alma provada e enfim vitoriosa, não me tocaram menos do que se eu as tivesse lido nas catacumbas, das quais elas parecem ter o perfume...”
O mesmo admirável aroma dos primeiros martírios
É deveras bonito o comentário de Veuillot, cujo trecho nos leva a admirar o triunfo da graça. Pois trata-se de uma alma que em diversas oportunidades firmou boas resoluções, sem lograr mantê-las. Em seguida, renovava os bons propósitos e tinha novas quedas. Afinal, à força de rezar — era uma pessoa piedosa, ciente de que sem o auxílio divino, implorado com perseverança, nada alcançaria — obtém o que tanto almejava. Depois de muito tempo e de vários insucessos, conquistou a vitória na sua vida espiritual.
Era uma alma perseguida por inquietações (talvez escrúpulos, ou alguma má inclinação à qual ela dava consentimento) e até revoltada, porque não obedecia a uma certa autoridade cujas determinações deveria acatar.
Após as recaídas, e à custa de orações, acabou chegando um determinado momento em que ela pôde dizer-se obediente, pacífica e tranquila. Então, com o senso artístico peculiar ao italiano, adornou com duas palmas as datas que representavam a sua vitória.
Considerando que essas notas traduzem uma situação comum em qualquer trajetória espiritual, somos levados a perguntar porque a pessoa em questão resolveu gravá-las nos muros de uma igreja. Certamente porque foi o lugar onde recebeu uma graça particular, e onde, a horas furtivas, vinha inscrever na pedra do templo a sua confissão a Deus. Essa alma traçou ali seu diário, por desígnios da Providência, a fim de que fosse copiado e analisado por Louis Veuillot. E é este comentário do grande literato que nos interessa.
Diz ele que o fato era digno de estar escrito na parede de uma catacumba romana, pois tem o perfume dela.
Ora, isso nos mostra o caráter perene da Igreja; revela-nos como, nas condições da vida hodierna, é possível repetir toda a glória do seu remoto passado. Com efeito, uma alma fiel que luta contra suas próprias misérias e que, apesar das infidelidades, roga constantemente o socorro de Nossa Senhora, para se ver resgatada de suas faltas e livre do império delas — essa alma realiza algo tão belo quanto o cristão que enfrentava no Coliseu, ou em outra arena, os leões e os tormentos do martírio.
Realmente, para quem conhece o valor das coisas espirituais, a seriedade e o desejo de cumprir o dever, o saber se humilhar quando se cai, decidir levantar-se de novo e confiar na misericórdia de Maria, possui um perfume admirável. É o bom odor do sofrimento humano suportado com fé. No episódio descrito por Veuillot se percebe a alma sofredora que se dilacerou para conseguir a fidelidade aos seus propósitos. Ela teve uma fé que move as montanhas, e finalmente alcançou seu objetivo.
Ora, esse torcer e sangrar da alma para cumprir seu dever é uma forma de imolação que tem o aroma de todos os martírios. Quiçá não ateste o heroísmo num grau análogo ao daqueles cristãos sacrificados nos circos romanos. Porém, basta manifestar um certo sentido de heroísmo para exalar algo do perfume das catacumbas, todo feito do espírito de epopéia dos primitivos católicos que as freqüentavam.
Orar sempre, orar muito, sem desânimo
Cumpre colhermos dessas considerações uma aplicação para a nossa vida espiritual. E será compreendermos que jamais devemos desanimar quando não conseguimos observar os bons propósitos que fazemos. Ainda que tenhamos insucessos, é necessário rezar, confiar e orar mais, porque à força de pedir, o Céu se abrirá para nós.
Os que imploram com insistência a graça de praticar a virtude, por débeis que sejam, pertencem por excelência à categoria daqueles aos quais Nosso Senhor recomendou:
“Batei e abrir-se-vos-á; pedi e dar-se-vos-á”.
Quer dizer, é uma glorificação da prece como meio eficaz para o homem obter aquilo que, pelo seu próprio recurso, não alcançaria.
Alguém poderá dizer: “As minhas orações valem pouco”. Eu respondo: então reze muito. Pois se possuo apenas algumas moedas para adquirir uma jóia bastante valiosa, é-me necessário reunir uma grande quantia para comprá-la. Assim também, se julgo que minhas orações valem pouco, à força de acumulá-las, seu peso há de crescer. Se considero meu Rosário insuficiente, recitarei dois. E se não tenho tempo para os dois, direi um Rosário e uma Ave-maria. Como quer que seja, rezarei o mais possível, e essa persistência acabará por me alcançar do Céu a graça desejada.
A esse respeito, não posso deixar de mencionar, uma vez mais, a célebre parábola de Nosso Senhor no Evangelho.
É noite, e um homem já se encontra deitado com seus filhos, para dormir. Em certo momento, o vizinho lhe bate à porta, rogando-lhe um pedaço de pão.
— Chegaram hóspedes inesperados, e não tenho o que lhes servir — disse-lhe.
E o primeiro respondeu:
— Não posso atendê-lo, pois estou deitado com todos os meus filhos.
O vizinho continuou a bater e a insistir, até que o dono da casa lhe gritou:
— Não é por amizade, mas para me ver livre da sua amolação é que vou me levantar e lhe dar o pão.
Com essa parábola Nosso Senhor nos oferece o seguinte ensinamento: “Sede assim em vossas orações”. É como se Deus acabasse dizendo a cada um de nós: “Este é muito cacete. Vou atendê-lo”.
Tenhamos, pois, a excelsa virtude da caceteação. Saibamos ser importunos e pedir, pedir e pedir outra vez. No pedido mil e um obteremos mais do que suplicamos. Ganharemos uma paga imensamente grande.
Essa circunstância se dá de um modo ou de outro na vida de todos os homens, mesmo na daqueles que se acham adiantados na prática da virtude. Para galgarem um patamar ainda mais elevado nas vias do bem, é necessário rogar muito. Então peçamos, lembrando-nos desse diário visto por Louis Veuillot em Roma. A oração acaba vencendo tudo.
Uma palavra final. Se alguém estiver desanimado, desacoroçoado, julgando infrutíferas suas preces porque nada conseguem, dou-lhe este conselho: tome o Rosário, reze-o e nunca o abandone. Quando não puder recitá-lo, segure-o na mão e este gesto valerá por uma prece. Se possível, tenha em casa uma lamparina acesa constantemente junto a uma imagem de Nossa Senhora, e diga à Santíssima Virgem:
“Minha mãe, sou tão dissipado que não consigo rezar. Mas, quando olhardes para esta lamparina, lembrai-Vos de que eu quereria estar rezando. Ao menos este desejo subconsciente me acompanha a vida inteira.
Portanto, dirijamo-nos a Maria Santíssima em todas as ocasiões. Certo estou de que, se Ela demorar em nos atender, é porque nos reserva um dom imensamente valioso, muito maior do que podemos imaginar.
Revista Dr Plinio 78

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Aspectos terrenos que nos lembram a Deus

Na terra há uma porção de fatos que nos lembram - enquanto tal significam - o próprio Deus. Por exemplo, um pai ou uma mãe que embala uma criança. Que significado isto tem? Pai ou mãe por excelência é Deus Nosso Senhor, porque Ele não nos gerou apenas, mas nos criou. Sabemos que a vida de nossos corpos vem de nossos pais, mas a alma que cada um de nós recebe é diretamente criada por Deus. Nossos pais não são pais de nossas almas. E o que temos de mais importante é a alma, não o corpo. Deus é o Pai de nossas almas. Mas Deus é o criador de Adão e Eva, que foram os pais de todos os homens. Ele é, portanto, nosso Pai por excelência. O carinho do pai, o carinho da mãe nos lembram o carinho de Deus, o afeto de Deus, a solicitude de Deus.
Ao folhearmos a Escritura, encontramos um número enorme de comparações em que Deus alude a Si mesmo como sendo pai, alude a Si mesmo como sendo mãe, e depois mostra que Ele é mais do que o pai e a mãe. Uma das frases de Deus ao pecador, no Antigo Testamento, diz: "Ainda que teu pai ou tua mãe te esquecesse, Eu não me esqueceria de ti". Quer dizer, ainda que o homem cometa ações tão abomináveis que o pai ou a mãe o rejeitassem, Deus não o rejeitaria. Porque Ele é a fonte de toda misericórdia, e não abandona nenhuma criatura humana. Deus toma o pai e a mãe como significados dEle, convidando o homem a olhar  para algo mais alto, que é Ele, de quem o pai e a mãe são sinais.
Só o pai e a mãe? Toda autoridade existente na terra é significado de Deus. Tomemos a "autoridade" mais humilde que há, a do pastor que guia suas ovelhas. Nosso Senhor Jesus Cristo se comparou ao bom pastor. Quer dizer, Ele mesmo indicou que, havendo criado as ovelhas e o pastor, estabeleceu uma relação pastor-ovelhas que é imagem da relação Deus-homem. E indicou que, olhando um pastor que dirige os movimentos do rebanho, devemos nos lembrar dEle dirigindo os homens e a história.
É incontável o número de fatos materiais que significam fatos sobrenaturais. Outro é o seguinte: nas mesas de comunhão antigas, havia por vezes pinturas de veados bebendo água numa fonte. É alusão a um salmo:“"Sicut cervus ad fontem aquarum desiderat, ita desiderat anima mea ad te, Deus". Assim como o cervo vai para a fonte das águas, assim, ó Deus, a minha alma te deseja a Ti. É a significação, no reino animal, do desejo que a alma tem de Deus. Deus é a fonte de todas as águas, é a origem de todas as coisas. Que bonita essa comparação: uma fonte que brota; e Deus, que fez brotar tudo do nada! Como isso é majestoso! A fonte é um sinal de Deus. Assim como o cervo que corre velozmente, encontra uma fonte e pára para se dessedentar, assim nossa alma, correndo pelos caminhos da vida, tem sede de Deus. E nossa alma pára diante de Deus e "bebe".
Isso é do Antigo Testamento. Mas a Igreja faz aplicação para o Novo Testamento. Como pode alguém beber a Deus? É a Sagrada Eucaristia, que estava profetizada nisso. É a sede, ou fome, eucarística, o desejo de comungar. As saudades da alma que, por qualquer razão (está num local onde não há igreja) não pode comungar. Quando consegue, comunga como um cervo que vai à procura das águas.
Poderíamos ainda apontar mil outras aplicações.
Volto ao exemplo das autoridades. Não é só o pai que representa a Deus. Quantas vezes Deus se compara a um rei no Evangelho, ou no Antigo Testamento, para dar a entender que, se queremos ter idéia de como Ele é, contemplemos a autoridade régia. Não se trata da pessoa do rei, que pode ser um crápula, mas a autoridade do rei, os atributos, a missão, o poder, o cargo régios. É um fulgor de Deus.
O professor é um sinal de Deus enquanto ensinando. Simboliza a Deus que leciona a Si próprio às suas criaturas, que fala de Si e Se faz ver por suas criaturas. Deus, neste caso, tem um significado que é o mestre.
O patrão que dirige o trabalho, para que as coisas dêem certo, é um significado de Deus, porque é Deus ordenando todo o universo para que produza.
E daí para a frente, os senhores têm um número incontável de aplicações que são significados.*

*Excerto de um artigo publicado na Revista Dr Plinio nº 49