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terça-feira, 7 de maio de 2013

Histórias para catequese

Na cozinha, com Irmão Bartolomeu


No fim da tarde, o mestre em doutrina se apresentou na cozinha, para ajudar o frei cozinheiro. Justo naquela noite, o prato da ceia seria talharim com molho ragu.
Situado no último andar da mais alta torre do mosteiro, o quarto do abade Luigi ocupava um lugar estratégico. A escolha do aposento não fora sem motivo, pois o prudente superior fazia questão de ter uma boa visão do mosteiro entregue pela Providência aos seus cuidados.
Naquela manhã, ao olhar pelas janelas, dois monges lhe chamaram a atenção. O primeiro foi Irmão Bartolomeu, o qual, subindo a trilha, voltava da cidade arfando sob o peso de duas grandes sacolas repletas de víveres por ele recebidos na feira da cidade.
Esse bom frade era homem simples, de pouca instrução, mas muito piedoso e dedicado. Conseguia os mantimentos e ele mesmo os preparava, procurando, até onde permitia a pobreza franciscana, servir aos monges a melhor alimentação possível.
Da outra janela, o abade avistava o claustro. Sentado em um banco de pedra, estava o segundo monge alvo de suas atenções. Tendo alguns livros empilhados à sua volta, Frei Lucrécio lia entusiasmado um grosso volume de apologética. Era ele quem ministrava as aulas aos jovens noviços, e sua segurança em matéria doutrinária lhe granjeara fama nas redondezas, a tal ponto que tanto leigos como religiosos vinham consultá-lo sobre intrincados pontos dos ensinamentos cristãos.
Observando os dois monges, o velho abade pôs-se a meditar na grandeza de Deus, que criava homens tão diferentes, mas os fazia viver sob o mesmo teto, irmanados pela mesma vocação, e chamados a servir a seus semelhantes de maneiras diversas.
* * *
No meio daquela tarde, alguém subiu os degraus da torre e bateu à porta do quarto do abade. Era Frei Lucrécio. Com um livro debaixo do braço, pedia uma conversa reservada com seu superior.
— Pois não, irmão. Alguma dificuldade o aflige?
— Não a mim, senhor abade, mas à nossa comunidade. Desculpe-me, mas não posso mais suportar o fato de haver entre nós uma pessoa tão desqualificada como esse... esse Irmão Bartolomeu!
O abade Luigi levantou as sobrancelhas, um pouco surpreso. Que mal teria feito o humilde monge? E Frei Lucrécio continuou, dando argumentos para demonstrar como aquele homem tão ignorante causava malefício à comunidade:
— Ele simplifica tudo! Nunca consegue acompanhar os elevados raciocínios que eu, mestre em teologia, procuro transmitir. Ademais, tem costumes estranhos, como, por exemplo, na ocasião em que tentou ensinar um papagaio a rezar a Ave Maria...
O abade ouviu, com ar perplexo e sem dizer palavra, o monge apresentar suas queixas. Seu olhar atento indicava estar ele pensando rápido, porém profundamente. E quando o outro terminou de falar, respondeu:
— Pois bem. Tudo quanto você me disse é muito sério. Mas eu gostaria de ter mais dados, antes de tomar alguma atitude. Por exemplo, não sei exatamente o que ele faz na cozinha, quando fica sozinho. Assim, peço acompanhá-lo esta tarde na preparação do jantar, e depois me apresentar um relato detalhado de tudo o que ele diz e faz. Fique atento a qualquer atitude na qual ele demonstre essa suposta mediocridade, ou ignorância, por você mencionada. Em função disso, tomaremos uma atitude.
* * *

E assim foi. No fim da tarde, o mestre de teologia se apresentou na cozinha, para ajudar o irmão cozinheiro. Como este nunca discutia uma ordem superior, nada perguntou a respeito. Justo naquela noite, o prato da ceia seria talharim com molho ragu. O douto monge observava com atenção tudo quanto o outro fazia. Além da carne moída, havia vários ingredientes que lhe pareciam bem saborosos, como, por exemplo, cebola, toucinho e tomate, este último por ele especialmente apreciado. Quando, porém, Frei Bartolomeu começou a cortar as cenouras, Frei Lucrécio protestou:
— Como? A tantas delícias, você vai acrescentar essas míseras cenouras? Esse vegetal mesquinho vai alterar completamente o gosto do molho!
— Mas... mas... eu sempre fiz assim! — disse o pobre cozinheiro.
— Pois bem, se quiser, sirva isso para os outros. Para mim, separe uma parte do molho, sem essas pérfidas cenouras.
Enquanto isso, Frei Lucrécio pensava consigo mesmo: “Aqui está, sem dúvida, uma prova da ignorância desse homem, pois em tudo o que ele faz procura acrescentar uma nota de mau gosto, como essa história das cenouras. Amanhã, vou contar isso ao abade”.
Na hora do jantar, todos comeram a pasta com o ragu convencional, exceto Frei Lucrécio, a quem foi servida a parte sem cenouras. Para sua surpresa, o preparado estava horrivelmente ácido, a tal ponto que ele com dificuldade pôde terminar o prato. Como, porém, havia sido uma exigência sua, ele tudo comeu sem nada reclamar...
* * *
Aquela não foi uma boa noite. O molho definitivamente não lhe caiu bem. Ele não conseguiu dormir direito, teve pesadelos e acordou várias vezes com enjôo. Na manhã seguinte, pálido e com olheiras, foi falar com o abade para apresentar seu relato. Este se impressionou com o aspecto doentio do douto mestre, o qual então lhe contou o ocorrido com o molho ácido, causa de seu mal-estar.
O experiente abade, sorrindo, lhe disse:
— Sabe, Irmão Lucrécio, quando fui noviço, trabalhei um bom tempo na cozinha. Aliás, fui eu que pedi a Frei Bartolomeu para fazer ragu ontem. É bem interessante como a culinária, em certas ocasiões, apresenta exemplos úteis à vida religiosa. Na verdade, compor uma boa comunidade muitas vezes é como preparar uma boa receita: exige a sábia combinação de vários ingredientes. Veja o tomate: tem um sabor todo especial e é um dos elementos centrais do molho, mas facilmente se torna ácido; por isso é necessário colocar junto dele a humilde cenoura, cuja função nessa receita não é dar sabor, mas justamente absorver a acidez do conjunto.
Irmão Lucrécio, acredito que esteja compreendendo bem esta comparação, mas quero deixá-la mais clara. Assim como o cozinheiro na preparação da receita, também eu, na função de abade, devo cuidar de monges que me são preciosos por sua sabedoria e doutrina, embora sejam por vezes “ácidos”. E para isso, me ajuda dispor também de outros que não têm muita proeminência, mas, por sua simplicidade, agem como as cenouras no molho ragu: suavizam o conjunto. Entende agora, irmão, porque me alegra poder ter você e Frei Bartolomeu juntos em nossa comunidade?
Frei Lucrécio aceitou com humildade as palavras de seu virtuoso abade. Reconfortado, agradeceu o ensinamento e, após a benção, se dispôs a sair. Quando estava já à porta, ele ainda lhe disse:
— Ah, um detalhe a mais, irmão: o molho ficou ácido também por não ter cozido durante o tempo suficiente; na culinária como na vida cristã, a paciência é uma virtude fundamental para que tanto o alimento quanto o convívio tenham sabor suave e agradável... 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O rei e o menino

Numa manhã de primavera, o rei resolveu fazer um passeio pelas ruas da capital. Pululavam-lhe na memória as tristes recordações do passado, no qual a morte visitara o palácio real. Primeiro foi a rainha, e pouco tempo depois, o príncipe, seu único herdeiro.
Enquanto contemplava as prósperas avenidas, repletas da população respeitosa e reverente à sua passagem, pensava que o fruto de sua honesta e sábia administração estava destinado a perecer após sua morte. Não encontrava em nenhum dos súditos e parentes as qualidades de espírito e a religiosidade indispensáveis para a salvaguarda de um reino cristão.
As densas nuvens que lhe turvavam a alma suavizaram-se um pouco à vista da catedral.
— Parai aqui, disse ao cocheiro, que quero rezar. Adentrando o sagrado recinto, o rei dirigiu-se à imagem de São José. Ali, brotou-lhe do fundo da alma uma prece:
— Ó bondoso pai de Jesus, a cujos pés vieram rezar, no decorrer dos tempos, também os meus antepassados. Entrevejo desde já as desgraças e desavenças que tomarão conta do reino após minha morte, caso eu parta desta vida sem deixar descendência. Vós, que tivestes sob vossa tutela o Rei dos reis e Senhor dos senhores, intercedei por mim junto Àquele que governa o universo.
Já no caminho de volta para o palácio, a carruagem dourada do soberano se deteve num cruzamento. Os olhos do monarca recaíram sobre um menino pobremente vestido que atravessava a rua. Impressionado pela semelhança que havia entre ele e o exherdeiro, mandou chamá-lo.
O pequeno aproximou-se timidamente e perguntou:
— Majestade, em que posso servi-lo?
— Senta-te ao meu lado, quero conversar contigo.
A princípio envergonhado por suas pobres e sujas roupas, o menino foi se esquecendo de sua miserável condição. Tão bondoso era o rei, e tão à vontade o deixara que sua atenção estava completamente voltada para o grande soberano.
— Como te chamas, e quem são teus pais?
— Chamo-me José, porque nasci no dia da festa desse santo. Quanto aos meus pais... eles morreram faz muito tempo. Eu moro com uma tia que não gosta muito de mim. Durante o dia eu peço esmolas, para aliviar um pouco as privações.
Diante desse menino frágil e necessitado, o rei discerniu um sinal do Céu.
— José, queres vir comigo para o palácio real, onde ocuparás o lugar do príncipe? Tu serás a partir de agora o meu filho, e quando Deus me chamar à Sua presença, tu serás o rei desta nação.
O pequeno menino abriu a boca, mas não conseguiu dizer nada. Aquele convite era completamente desproporcionado com sua humilde condição! Com muito esforço respondeu:
— Estou pronto para fazer a vossa vontade, meu senhor. Chegando ao palácio, o rei disse para toda a corte:
— Desejo que este menino seja meu herdeiro. Quando eu morrer, ele será o novo monarca. Levem-no para o quarto de dormir de meu falecido filho, vistam-no com suas roupas, ofereçam-lhe os alimentos que desejar, sirvam-no como fariam ao príncipe.
José foi sendo educado, tornouse moço e convivia de modo perfeito com o rei. Tudo corria com normalidade, porém no espírito do monarca nasceu uma interrogação: “Esse menino me quererá verdadeiramente bem? Ser-me-á agradecido pelo que recebe? Tornar-se-á digno de um dia dirigir meu reino? Ou será ele um ingrato que me agrada por interesses momentâneos? Para obter respostas seguras a essas indagações, vou submetê-lo a uma dura prova, pois se não o fizer, minha generosidade pode significar grande estultice”.
No dia seguinte o rei pôs em prática a dura prova para o príncipe. Passou a fingir que não lhe demonstrava a mesma amizade, que não o compreendia bem. Olhava-o com indiferença, e até com certa distância. Concedia-lhe audiências curtas, prestava-lhe pouca atenção, evitava-o em favor de coisas menos importantes. Chegou a ponto de conversar com terceiros, na presença dele, sobre reis viúvos e sem filhos que casaram novamente, tiveram prole e asseguraram sua descendência.
— Quem sabe se eu sigo o exemplo deles, contraio outras núpcias e tenho um herdeiro do meu próprio sangue?
Ao cabo de vários meses neste regime, o rei mandou um nobre da corte experimentar José.
— Não sei o que se passa, príncipe José, mas sinto nosso soberano muito mudado. Percebo que ele já não te devota o mesmo afeto de antes. Creio que para ele, já não és mais seu filho.
— Sim, nobre marquês, hei de concordar que o rei está muito sério e formal. Entretanto, não faz parte de seus direitos tratar-me conforme queira? Eu recebi tanto dele! Ainda que ele me tire tudo, eu o servirei a vida inteira!
Sem demora o marquês foi levar a resposta ao rei. Ficou assim comprovada a lealdade do coração do príncipe, o que muito consolou o monarca. Contudo, ele ainda precisava de uma derradeira demonstração de fidelidade do príncipe.
Certa madrugada, mandou acordá-lo e trazê-lo à sua presença.
— Preciso incumbi-lo de uma missão perigosa e confidencial. Em país distante há um preso que espera uma mensagem minha. Nesta noite mesmo, terás de sair disfarçado do palácio, viajar para lá, dizer que és meu filho, deixar-te prender e seres conduzido ao mesmo cárcere, para assim poder transmitir o meu recado à pessoa em questão.
O jovem, embora surpreso, não hesitou em responder:
— Meu senhor e pai, farei isso com todo o empenho. A que horas devo partir? Como se chama o preso? Qual é a mensagem que Vossa Majestade quer que lhe seja transmitida?
O rei deu ao príncipe as instruções necessárias e acrescentou:
— Você tem uma hora para estar pronto. Diga-me “até logo” e vai-te embora.
O rapaz se inclinou e se retirou.
Na hora exata, apresentou-se disfarçado diante dos guardas à porta do palácio. Mas, para sua surpresa, eles o impediram de sair, dizendo:
— O rei ordena que voltes para teu quarto! Ele retornou e o monarca o acolheu com transbordamentos de agrado. Estava assegurada a sucessão ao trono naquele reino mítico e maravilhoso...
* * *
Foi um sábio quem compôs essa história, à qual podemos dar a seguinte interpretação: tendo Deus criado os anjos para reinarem no Céu, olhou com tristeza os tronos que os seguidores de Lúcifer deixaram vazios. Chamou, então, os pobres homens para ocuparem aqueles lugares esplendorosos, muito acima dos seus merecimentos; e a fim de comprovar o grau de amor e gratidão de cada um, decidiu submetê-los a provações.
Se nelas formos fiéis, pelos rogos misericordiosos de Maria Santíssima, Nosso Senhor nos introduzirá no Paraíso, dizendo: “Servo bom e fiel; já que foste fiel no pouco, eu te confiarei muito. Vem regozijar-te com teu senhor” (Mt 25, 21).

sábado, 10 de novembro de 2012

Vigiai e orai...

Muito se engana quem pensa que só os maus são espertos. A verdadeira piedade aguça a inteligência, faz desabrochar todas as qualidades do homem, e nos obtém o socorro do Céu.
Na pequena cidade bretã de Tréguier, na França, está sepultado o grande Santo Ivo, sacerdote, venerado como o “Advogado dos Pobres”. Faleceu ele em 1303 e foi canonizado em 1347. Seu túmulo tornou-se centro de peregrinações.
O ano de 1403 — em que se passa nossa história — foi de grande movimentação em Tréguier, todos comemorando com júbilo o primeiro centenário da entrada de Santo Ivo na glória celeste.
Passados os dias de festa, a população local retoma sua vida rotineira. Caía a tarde, dois cavaleiros entram na praça da Catedral e estacam diante de uma ampla casa cuja fachada ostentava uma artística insígnia com o seguinte título: “Pousada Santo Ivo das Duas Espadas”.
— A dona da Pousada está? — pergunta um deles.
— Sim, senhor, é com ela própria que falais. Chamo-me Teresa, às vossas ordens!
— Somos honrados negociantes de pedras preciosas. Queremos hospedagem por alguns dias. Meu nome é Marción e meu sócio se chama Nicanor.
— Sede bem-vindos à terra de Santo Ivo! Vou mandar acomodar vossas montarias e preparar-vos dois belos aposentos e uma boa refeição.
Enquanto atendia assim os dois forasteiros, Da. Teresa examinava-os atentamente. Embora com menos de 35 anos, tinha já uma grande experiência da vida. Com a morte repentina de seu marido, poucos anos antes, assumira corajosamente o comando da Pousada e o cuidado dos oito filhos menores. Habituada, já no primeiro contato, a fazer o “raio-X” das pessoas com as quais tratava, observara bem aqueles “honrados negociantes”, concluindo que seria prudente desconfiar de suas boas intenções.
Por sua vez, os dois recém-chegados examinaram com atenção sua interlocutora e a casa. Os arranjos, o grande crucifixo entronizado no salão, as numerosas imagens da Virgem e dos Santos — tudo ali denotava vida de piedade e devoção.
— Grande negócio à vista, hein, Marción!
— Sim, não falha! Ela é uma “beata”, portanto, deve ser uma tola. O negócio aqui vai ser fácil. Basta sermos bem espertos, cada vez mais espertos, certo?
— Claro! Para os bobos, os sermões e procissões. Para nós, os lucros... Após se instalarem, os dois desceram para o restaurante, onde lhes foi servido um bom jantar. Antes de se recolherem, pediram para falar com a dona da Hospedagem. Disse-lhe Marción:
— Queremos que nos guarde em vosso cofre esta caixa, na qual estão nossas mais valiosas pedras!
— Perfeitamente, temos um cofre forte e seguro.
— Mas, não me tome a mal se pedir uma garantia — insistiu o hóspede.
— Sim, tendes todo o direito. Dizei-me qual deve ser essa garantia.
— Que só entregueis esta caixa a qualquer um de nós na presença do outro, pois este é o único meio de evitar... digamos assim, desavença entre nós dois. É uma importante medida cautelar, para não serdes vós mesma responsabilizada por alguma... alguma má ocorrência, entendeis?
— Entendido! Bom descanso, senhores.
A dona da Pousada foi guardar no cofre a preciosa caixa, os dois hóspedes dirigiram-se para seus quartos.
No dia seguinte, de manhã, pediram a Da. Teresa para trazer-lhes a caixa, retiraram as pedras que julgaram convenientes e saíram para seus negócios. Ao cair da tarde, retornaram satisfeitos e foram juntos solicitar novamente a caixa, na qual depositaram seus valores.
Passou-se assim uma semana, seguindo sempre essa mesma rotina.
Certo dia, Nicanor desceu sozinho, comunicou que desejava pagar as despesas de hospedagem, pois iriam partir para outra cidade. Da. Teresa fez as contas e lhe passou a nota. O comerciante abriu a bolsa e começou a contar moedas de ouro e prata.
— Meu sócio já vai descer. Não podeis já ir buscar a caixa, para entregar quando ele chegar?
Ouvindo os passos do outro no corredor em cima, a hospedeira não hesitou em abrir o cofre, tirar a caixa e depositá-la sobre a mesa. Nicanor, sorridente, pôs-lhe nas mãos a quantia da despesa e pediu um recibo. Da. Teresa foi ao armário, a dois metros, para pegar tinteiro e papel... quando voltou percebeu que estava sozinha na sala.
Em poucos segundos, o “honrado negociante” tinha desaparecido com a valiosa caixa de pedras preciosas!
Logo percebeu ela a armadilha que lhe haviam preparado os dois facínoras: Marción certamente iria reclamar em juízo indenização pela metade das pedras preciosas... Ela talvez tivesse que vender todos os seus bens, ficando reduzida à indigência! Mas a Da. Teresa, mulher de vigilância e de oração, não faltava coragem nem presença de espírito. Ergueu à Protetora dos Cristãos e a Santo Ivo, padroeiro dos advogados, uma ardorosa prece, e traçou num relance seu “plano de combate”.
Entrando na sala, o outro bandido cumprimentou-a sorridente, como de costume, e manifestou surpresa por não ver lá seu sócio.
— É, eu achei estranho... ele saiu de modo inesperado, sem nada dizer, acho que não deve demorar. Enquanto aguardamos sua volta, dai-me licença de ir à cozinha tomar umas rápidas providências.
Dito isto, retirou-se, não para a cozinha, mas para a Capela da Pousada.
De joelhos diante da imagem de Santo Ivo, implorou fervorosamente sua ajuda.
Houve algum milagre? Não se sabe... O certo é que Da. Teresa sorriu e saiu confiante, sentindo uma mensagem gravada em sua alma.
Chamou o capataz da cavalariça e deu-lhe breves explicações, concluindo:
— Sigam, pois, a indicação que me deu Santo Ivo: vão a todo galope pela estrada de Saint-Brieuc, para agarrar o ladrão na Gruta do Trigal, onde estará escondido.
Retornando à sala, disse-lhe Marción, com um sorriso desdenhoso:
— Bem, senhora, já que meu sócio, pelo visto, desapareceu, peço trazer-me a caixa com as jóias, confiada aos vossos cuidados.
— Ah, senhor, isso nunca! Assumi o compromisso de trazê-la apenas quando os dois estejam presentes. Tereis de aguardar a chegada de vosso companheiro.
Por esta o farsante não esperava! Então dessa beata, dessa rezadeira de intermináveis “rogai-por-nós”, quem poderia esperar tamanha sagacidade? Na incerteza, resolveu sondar o terreno:
— Podeis, pelo menos, abrir o cofre, para provar que a caixa lá está?
— Acaso, desconfiais de vosso sócio?...
— Senhora! Não se brinca com um negociante experimentado como eu. Ou abris já o cofre, ou irei imediatamente fazer uma denúncia ao juiz.
— Esperai um pouco mais, senhor, Nicanor logo chegará... trazido pela polícia.
— Polícia?!...
— Isto mesmo! A polícia judiciária partiu a galope para pegá-lo na Gruta do Trigal, onde estaria à vossa espera, conforme havíeis combinado.
Ouvindo isto, o larápio percebeu que todo o plano estava descoberto. Inútil seria qualquer nova artimanha. Deixou-se ficar ali, passivo, aguardando os acontecimentos. Pouco tempo depois, entraram os policiais, trazendo Nicanor bem algemado. Sentindo-se já encarcerado para o resto da vida, Marción só teve força para indagar, confusamente:
— Como?... como descobristes tudo tão depressa?
— Fiz o que Jesus ensinou: vigiei, orei e agi. A verdadeira piedade aguça a inteligência e faz desabrochar todas as qualidades. Sobretudo, nos obtém o socorro do Céu. Rezei a Santo Ivo, ele me atendeu. No calabouço, não vos faltará tempo para meditar sobre vossa má vida. Tirai bom proveito para a salvação de vossa alma.