terça-feira, 6 de novembro de 2012

Imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima - Arautos do Evangelho

Sempre sob a maternal e insondável solicitude da Santíssima Virgem, as Irmãs da Sociedade Regina Virginum não se cansam de abrir novas frentes de evangelização, levando a Imagem de Nossa Senhora de Fátima às famílias dos fiéis da Paróquia Nossa Senhora das Graças.
Como em todos os lugares por onde peregrina, a imagem da Virgem de Fátima percorre e abençoa os lares, derramando sobre todos a abundância de suas misericórdias.







sábado, 27 de outubro de 2012

A misericórdia triunfa sobre a justiça

 Há muito tempo, morava numa cidade da França uma jovem senhora cujo marido morrera, deixando-a com dois filhos pequenos: Guilherme e Roberto. A boa mãe não poupava esforços para lhes dar sólida educação cristã, a fim de serem mais tarde homens honestos e virtuosos como o fora seu pai.
Passavam-se os anos, e ambos cresciam fortes, saudáveis e inteligentes. Eram muito diferentes, porém, quanto ao comportamento: o mais velho, Guilherme, revelava-se disciplinado, estudioso e amante da oração; o mais novo, ao contrário, causava não poucas preocupações à mãe, por ser revoltado, insolente e dado à vadiagem. A pobre viúva esforçava-se por corrigi-lo, mas ele reagia com orgulho contra todas as suas admoestações.
Assim, quando os dois chegaram à idade de escolher cada qual seu rumo na vida, Guilherme decidiu seguir a carreira de Direito, a exemplo de seu falecido pai. Roberto deixou-se levar pelas suas más inclinações, juntou-se a maus companheiros, caiu no vício do jogo e um dia declarou sua intenção de partir: não se sentia bem no ambiente familiar, desejava viajar, conhecer o mundo! Indiferente às lágrimas maternas, abandonou o lar e o afeto dos seus. À desolada mãe só restava um recurso: redobrar de orações pela recuperação do filho desviado.
Pouco mais de dez anos depois, Guilherme foi nomeado juiz da cidade. Por sua honestidade e competência, em pouco tempo tornou-se famoso em toda a província: não havia problema que ele não resolvesse, injustiça que não punisse. Todos o respeitavam e estimavam.
* * *
Mas nem tudo era ordem e alegria naquela cidade. Uma perigosa quadrilha de salteadores assolava a região, deixando em pânico os moradores. As casas eram saqueadas, os proprietários despojados de seus objetos de valor. Se algum viajante aventurava-se à noite pelas estradas, os bandidos o assaltavam sem piedade e lhe roubavam tudo: dinheiro, jóias, cavalo, nada poupavam.
Guilherme promoveu uma caça sem tréguas aos terríveis malfeitores. De início, seus esforços revelavam-se vãos, pois os ladrões, espertos e conhecedores do terreno, várias vezes escaparam praticamente por entre os dedos da polícia.
À vista disto, o juiz decidiu percorrer os pontos mais vulneráveis das estradas, para intensificar as operações de patrulhamento. Na volta, havia já caído a noite. A pequena escolta policial cavalgava decidida e sem medo, mas com a estranha sensação de estar ameaçada por um iminente perigo.
De súbito, ouviu-se um grito agudo. Era o sinal de ataque dos bandidos, emboscados atrás das árvores. De todos os lados saltaram homens armados e atacaram os policiais e seu comandante. Guilherme, rodeado por três salteadores, defendeu-se com destreza e valentia, recebeu uma profunda ferida, ficou todo ensanguentado, mas manteve-se firme na sela, lutando e animando seus companheiros. O combate, embora árduo, foi curto. Os delinquentes fugiram, desaparecendo na escuridão.
Levado às pressas para a cidade, Guilherme recebeu socorros médicos e logo viu-se fora de perigo. Uma grave impressão, porém, o inquietava. Ele julgava ter reconhecido, à luz pálida da lua, a fisionomia do assaltante que o atacara com mais furor e conseguira feri-lo: parecia ser seu irmão, Roberto... Mas, na dúvida, não quis revelar isso a ninguém.
A polícia redobrou seus esforços e, poucos dias depois, capturou o chefe do bando, o qual foi sem tardança conduzido ao tribunal para ser julgado. Ao vê-lo, Guilherme não teve mais dúvida alguma: quem quase o tinha matado naquela noite era de fato Roberto, seu irmão! Longe de demonstrar arrependimento, este tentava apresentar-se seguro de si, ostentando modos insolentes.
Embora emocionado, o juiz não podia deixar de fazer justiça. Por seus inúmeros roubos, o salteador merecia longos anos de prisão; e pela tentativa de assassinato de um magistrado do reino, a lei era bem clara: o réu devia ser enforcado no prazo de três dias.
Na hora marcada para a execução, o condenado foi conduzido à praça principal da cidade, onde uma multidão estava à espera, desejosa de presenciar o fim do bandido que durante tanto tempo espalhara o pânico entre os pacíficos habitantes da região.
Triste espetáculo aquele! Rodeado de guardas e bem amarrado, o infeliz se arrastava em direção ao patíbulo. Sua atitude, porém, parecia mudada. A proximidade da morte o fez refletir sobre a loucura da sua vida de vício e de crimes. Uma expressão de dor e arrependimento desenhava-se em sua fisionomia, e seus lábios moviam-se silenciosamente. Estaria recitando alguma oração aprendida na infância?
* * *
O lúgubre cortejo chegou, enfim, junto à forca. Já o carrasco fazia os últimos preparativos para a execução quando uma mulher, derramando abundantes lágrimas, fendeu a linha dos soldados, lançou-se ao pescoço do criminoso e o cobriu de carícias. Nenhum guarda ousou afastá-la, pois todos perceberam tratar-se da mãe do condenado... e do juiz!
Aquele bandido era o filho por quem ela chorava e rezava havia tantos anos. Quanta dor naquele reencontro! Roberto achava-se sob o peso de uma sentença pronunciada por seu próprio irmão... Dentro de alguns instantes a desolada viúva perderia para sempre o filho. Seu coração jamais suportaria que em sua presença se consumasse a execução! Correu ao tribunal, prostrou-se aos pés do juiz e suplicou graça para o condenado. Ante a veemência dos rogos maternos, Guilherme deixou-se comover: “Minha mãe, a ti nada posso negar!”
Isto dito, dirigiu-se com ela apressadamente até o local do suplício. O trágico espetáculo ia já chegando ao fim: o bandido estava com a corda no pescoço, em um instante estaria pendurado e seu corpo sem vida seria o mudo testemunho da justiça executada.
O juiz adiantou-se, mandou desamarrá-lo e, apresentando-o à multidão, declarou: — Quando este homem compareceu diante de mim para ser julgado, não o olhei como meu irmão, mas como criminoso. Sobre ele pesavam duas sentenças distintas: longos anos de prisão, por roubos e violências; e pena de morte, pela tentativa de assassinato. Quanto à primeira, eu não podia transigir. Com relação à segunda, sim, pois uma excepcional circunstância fazia de mim, ao mesmo tempo, o ofendido e o juiz. Contudo, não usei de condescendência, por entender que o bem comum e o exemplo da justiça deviam prevalecer sobre o amor fraterno. Mas um coração materno fez-me uma pungente súplica à qual não posso ser insensível. Entre a justiça implacável e a gravidade do delito entrou o timbre suave da misericórdia. Como poderia eu deixar de atender um pedido vindo de tal advogada? Este homem — meu irmão — terá de pagar no cárcere o mal que fez à sociedade, mas a intercessão materna salvou-lhe a vida.
* * *
Na verdade, o dramático episódio narrado nestas páginas é apenas uma pálida imagem da situação de cada um de nós. Por nossos pecados, quantas vezes nos tornamos merecedores das punições de Deus! Temos, porém, no Céu uma intercessora incomparavelmente mais poderosa e cheia de misericórdia que a pobre viúva desta história. Por meio de seus rogos, Nossa Senhora pode alcançar-nos de seu Divino Filho o que Ele, por sua justiça, não nos concederia. Com filial alegria, tenhamos, portanto, uma confiança sem limites em sua intercessão, pois Ela a justo título é chamada a “Onipotência Suplicante”.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O GRANDE PREGADOR

Frei Anselmo era inteligente e preparava seus sermões com esmero. Por onde passava, ia ficando um rastro de conversões e reafervoramento. Um dia, entretanto, suas palavras deixaram de ter efeito nas almas. O que teria acontecido?
 Anselmo e Mário, dois grandes amigos, não podiam ser mais diferentes um do outro, no que diz respeito aos dotes da natureza. O primeiro era talentoso, elegante, rico e de boa família. O segundo, pobre e apagado. Entretanto, por cima de todas essas diferenças, algo os unia estreitamente: ambos eram grandes de alma.
Naquela manhã de domingo, Anselmo comunicava a seu amigo que estava de partida para ingressar como noviço no Convento de São Domingos.
— Quero ser pregador, como bom filho de São Domingos, para converter muitas almas a Cristo e divulgar a devoção do Santo Rosário.
Embora triste, por ver romper-se um convívio de muitos anos, Mário felicitou seu amigo e o incentivou a seguir avante naquela sublime vocação.
— Ficaremos sempre unidos pela oração. Rezarei muito para que sejas um grande pregador santo — respondeu, dando ênfase ao adjetivo santo.
Poucos meses depois, Mário conseguiu um meio de alojar-se também no Convento de São Domingos, onde prestava pequenos serviços à comunidade. E... de vez em quando conversava um pouco com seu estimado amigo, ao qual repetia sempre:
— Rezo sem parar para que sejas um grande e santo pregador!
Chegou, enfim, o esperado dia da ordenação sacerdotal de Anselmo. Seu primeiro sermão arrebatou e comoveu os fiéis. Desviando de vez em quando o olhar dos assistentes, o pregador via Mário num canto da igreja, desfiando discretamente as contas de seu Rosário. “É por mim que ele está rezando!” — pensava, agradecido.
Ao cabo de poucos anos, Frei Anselmo tornou-se um pregador famoso. De todas as partes vinham-lhe solicitações de párocos e bispos.
Além de inteligente e culto, ele preparava com esmero suas pregações. E os bons efeitos eram atestados pelas numerosas conversões e surtos de reafervoramento espiritual em todos os lugares onde se faziam ouvir suas ardorosas palavras.
Mário continuava no convento, onde passou a ser chamado de “Irmão Mário” pelos monges. Homem jeitoso, ele conseguiu um meio de acompanhar Frei Anselmo em todas as viagens, para “cuidar de suas coisas”. E — detalhe curioso! — não perdia um sermão sequer. Lá estava sempre ele, com seu grande Rosário nas mãos, rezando, rezando...
Mas, como fazia Frei Anselmo para arrebatar e converter as multidões?
Numa Sexta-Feira Santa, o Bispo o encarregou de fazer a homilia sobre a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Na Catedral apinhada de fiéis, todos ouviam atentamente. Chegando ao ponto em que o Divino Redentor inclinou a cabeça e expirou, ele fez uma pequena pausa, depois disse estas simples palavras:
— E Deus morreu!...
O respeitoso silêncio foi quebrado por soluços, em muitas faces corriam as lágrimas. A divina tragédia do Filho de Deus morto na Cruz tocara a fundo os corações.
Em outra oportunidade, era noite de Natal. Depois de compor cuidadosamente, na imaginação de seus ouvintes, a cena viva da Gruta de Belém, o grande pregador chamou a atenção para o transcendental acontecimento que ia se dar naquele momento e acrescentou:
— Então, o Filho de Deus se fez Menino e pousou sorridente nos braços de Maria!
Houve na igreja uma explosão de alegria. A emoção tomou conta de homens e mulheres, crianças, adultos e anciãos. Daqueles corações subia para o Deus Menino uma onda de ternura, de afeto e de adoração.
Mais alguns anos decorreram, ao longo dos quais cenas como essas eram habituais na movimentada vida de Frei Anselmo. Por onde ele passava, ia ficando um rastro de conversões, de mudança radical de vida, de fervor renovado.
Até que um dia... Sim, em certo dia de grande solenidade, o famoso pregador subiu ao púlpito e pronunciou as primeiras palavras do sermão enquanto olhava maquinalmente para o local onde costumava colocar-se o bom Irmão Mário. O lugar estava vazio. Onde estaria ele? — perguntou-se, preocupado.
Mas, enfim, Frei Anselmo tinha de preocupar-se com a homilia. Seguiu, pois, em frente. Como sempre, as ideias se formavam com toda clareza em sua mente e suas palavras límpidas e claras ressoavam pela vastidão do imenso templo. Mas — coisa estranha! — nas almas elas não ecoavam. Esforçou-se mais o pregador, pondo em jogo os imensos recursos de sua arte oratória para mover aqueles corações a uma atitude interior de fé e de piedade... Em vão!
O que teria acontecido?
Terminada a Missa, Frei Anselmo retornou ao Convento e perguntou ao porteiro:
— Onde está o Irmão Mário?
— Faleceu há cerca de meia hora. Seu corpo está na cela, ainda quente.
Após rezar junto ao corpo sem vida de seu velho e fiel amigo, o pregador quis saber o motivo dessa morte, tão inesperada para ele. O Padre Reitor explicou-lhe:
— Nos últimos meses o Irmão Mário dava indícios de estar gravemente enfermo, mas se recusava a descansar, alegando sempre que precisava “cuidar das coisas do Frei Anselmo”.
— Mas, o que mais fazia ele?
— Muitas orações! Rezava incansavelmente. Quando alguém lhe perguntava para quem eram tantas orações, ele respondia apenas: “Nossa Senhora sabe”.
— Ele era um santo — comentou Frei Anselmo, comovido.
— E muito...
O grande pregador continuou sua vida de intenso apostolado, mas sentia que tinha havido uma grande e inexplicável mudança. Preparava com o máximo de esmero seus sermões. As palavras fluíam-lhe dos lábios com abundância e clareza. Os fiéis o escutavam com agrado. Porém, não davam demonstração alguma de contrição, nem de fervor.
Algo havia desaparecido. O que seria?
Na Missa solene da festa de São Domingos, Frei Anselmo falava... falava... para ouvidos atentos mas corações fechados. Em certo momento, calou-se, como que tocado por uma visão, e começou a empalidecer. Alguns assistentes o ampararam e levaram para a sacristia. Ali mesmo, ouviu de um médico este diagnóstico:
— Estafa grave, Padre. O senhor precisa mudar de ares, repousar.
Esboçando leve sorriso, Frei Anselmo respondeu:
— Não... Não, nada disso! É ele... com suas intermináveis orações! A causa de todas aquelas conversões era ele, meu pobre amigo! Levem-me ao túmulo do Irmão Mário.
Lá chegando, o famoso pregador chorou longamente, humilhado, sim, mas convertido. Afinal, iluminado pela graça, havia compreendido que todo o êxito de seus sermões se devia, não à sua brilhante oratória, mas às fervorosas orações do humilde Irmão Mário.
Como uma benfazeja torrente de luz, vieram-lhe à mente as recordações de seus estudos sobre o indispensável papel da graça para mover as almas à conversão. Sim, os discursos mais lógicos, mais brilhantes são incapazes de suscitar qualquer bom movimento de alma. Quem converte é Deus, pela graça. E esta se obtém pelas orações, através da Virgem Santíssima.
Agora Frei Anselmo via com clareza a importância do Irmão Mário, o simples, o apagado... o poderoso Irmão Mário! Permaneceu durante várias horas diante do seu túmulo, rezando serenamente. Aproximando-se dele, o Padre Reitor lhe perguntou:
— Então, pedindo ao bom Irmão Mário o restabelecimento da saúde?
— Não, Padre Reitor, pedindo a virtude da humildade! — respondeu o grande pregador, levantando o rosto marcado pelos sulcos das lágrimas.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Oração a Jesus Sacramentado

Senhor meu Jesus Cristo, que, por amor aos homens, ficais dia e noite neste Sacramento, todo cheio de misericórdia e amor, esperando, chamando e acolhendo todos os que vêm visitar-Vos, eu creio que estais presente no Sacramento do altar. Adoro-Vos do abismo do meu nada e agradeço-Vos todas as graças que me tendes feito, especialmente a de Vos terdes dado a mim neste Sacramento, a de me haverdes concedido por advogada Maria, vossa Mãe Santíssima, e finalmente, a de me haverdes chamado a visitar-Vos nesta igreja.
Saúdo hoje o vosso Coração amantíssimo e quero saudá-lo por três fins: primeiro, em agradecimento pelo grande dom de Vós mesmo; segundo, em reparação das injúrias que tendes recebido, neste Sacramento, de todos os vossos inimigos; terceiro, com a intenção de Vos adorar, por esta visita, em todos os lugares da Terra onde Vós, neste divino Sacramento, estais menos reverenciado e mais abandonado.
Meu Jesus, amo-Vos de todo o meu coração. Arrependendo-me de, no passado, ter ofendido tantas vezes a vossa bondade infinita. Proponho, com a vossa graça, não mais Vos ofender no futuro. E nesta hora, embora miserável como sou, eu me consagro todo a Vós e Vos dou e entrego a minha vontade, os meus afetos, os meus desejos e tudo o que me pertence. Daqui em diante fazei de mim, e de tudo o que é meu, o que Vos aprouver. Somente Vos peço e quero o vosso santo amor, a perseverança final e o perfeito cumprimento da vossa vontade.
Recomendo-Vos as almas do Purgatório, especialmente as mais devotas do Santíssimo Sacramento e da Santíssima Virgem Maria. Recomendo-Vos também todos os pobres pecadores. Enfim, meu amado Salvador, uno todos os meus afetos aos afetos do vosso Coração amantíssimo e, assim unidos, eu os ofereço a vosso Eterno Pai, pedindo-Lhe, em Vosso nome e por vosso amor, que Se digne de os aceitar e atender. Assim seja.
Santo Afonso Maria de Ligório – Oração para antes da Visita ao Santíssimo Sacramento

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Um prodigioso esquecimento

Eram duros os tempos das primeiras missões evangelizadoras da América do Norte. Muitos habitantes daquelas terras não conheciam a Religião de Cristo e os apóstolos eram em número insuficiente para levar a todas as almas a verdadeira Fé. “ A messe é grande, mas os A operários são poucos” (Mt 9, 37), diz a Escritura. Mas, gradualmente, com o auxílio da graça, a Santa Igreja ia-se estabelecendo naquelas vastidões territoriais, como a gota de azeite se espalha silenciosamente pela folha de papel.
No povoado de Santa Maria dos Anjos, onde já todos eram católicos fervorosos, exercia seu fecundo apostolado o padre Jorge. Levantava-se de madrugada, passava uma hora de adoração a Jesus Hóstia e em seguida celebrava a Santa Missa. Hauria, assim, as forças para a labuta de cada dia. Cuidava da catequese das crianças e dos adultos, dirigia a escola e o hospital local, administrava os sacramentos, visitava os enfermos de toda a região.
Certo dia, chamaram-no para atender um doente em estado grave, que morava bem longe do povoado. O Sol já estava baixando, não tardaria a anoitecer. O pároco aprontou-se rapidamente, pegou os Santos Óleos para a Unção dos Enfermos e preparou tudo para levar o Santo Viático.
Valério, o sacristão, ofereceu-se para acompanhá-lo, pois a viagem era longa e não isenta de perigos, mas o sacerdote achou melhor que ele ficasse, para cuidar da igreja. Ele então selou o cavalo e ajudou o padre Jorge a montar, já com o Santíssimo Sacramento numa pequena teca, que levava dependurada ao pescoço, dentro de uma delicada bolsa.
Fustigando a montaria para acelerar a marcha, o pároco percorreu em pouco tempo vários quilômetros. Mas... aconteceu o inesperado: desabou um forte temporal, as escuras nuvens e o aguaceiro toldavam as últimas réstias de luz do Sol que ainda iluminavam aquela estrada cheia de acidentes e obstáculos. E o padre viu-se obrigado a parar numa pequena hospedaria, muito simples, mas limpa e ordenada.
Curiosamente, ali se abrigara, forçado também pela tempestade, um mensageiro do enfermo, enviado para comunicar-lhe que este dava sinais de recuperação e, portanto, já não era tão urgente a ida do sacerdote.
Tranquilizado por essa notícia, o padre Jorge tomou essa coincidência como um sinal da Providência e decidiu pernoitar ali, para não expor o Santíssimo Sacramento aos numerosos riscos de uma viagem sob a borrasca.
Ocupou um quarto no segundo andar, onde preparou da melhor forma possível um pequeno armário para servir de tabernáculo. Nele depositou a Sagrada Hóstia, pôs-se de joelhos e rezou durante algum tempo, depois trancou a porta e desceu para o refeitório, onde já estava servido o jantar.
Ali foi informado, em conversa com outros hóspedes, que o dono do hotel e sua família eram pagãos. Por prudência, evitou tudo quanto pudesse revelar que ele levava consigo Nosso Senhor Sacramentado e, terminada a refeição, recolheu-se sem demora ao seu quarto-capela, preparando-se para partir cedinho no dia seguinte.
Quando raiou o Sol, estava já ele a cavalo, para reiniciar sua viagem.
No meio do caminho, levou instintivamente a mão ao peito para sentir a presença do Santíssimo Sacramento e percebeu que a preciosa teca não estava aí! Encomendando-se à Santíssima Virgem, fez meia-volta, esporeou o animal e partiu de volta a todo galope.
Cruzando o portal da hospedaria, o padre Jorge saltou da cavalgadura e correu à procura do hoteleiro:
— Senhor, desculpe, mas alguém mais ocupou o quarto em que pernoitei?
Surpreso, ele lhe respondeu:
— Não, senhor padre. E que bom o senhor ter voltado, porque, desde a sua partida, fizemos de tudo para abrir a porta daquele quarto e não conseguimos. O que fez o senhor para deixar a chave emperrada na fechadura de maneira que ninguém consegue girá-la?
Impressionado, o sacerdote disse:
— Nada. Apenas deixei lá a chave...
— É, mas além de não conseguirmos abrir a porta, vê-se pelas frestas que o quarto está iluminado por uma luz desconhecida. O senhor deixou alguma vela acesa ali?
O piedoso sacerdote, que já tinha passado da terrível apreensão para a tranquilidade, foi invadido por uma grande alegria: essa luz só podia ser fruto de um milagre. Teriam os Anjos do Céu vindo fazer companhia a Jesus Sacramentando, protegendo-O de qualquer sacrilégio ou mesmo de simples irreverências?
— Vamos lá. Vou tentar abrir a porta.
E subiu rapidamente as escadas. O hoteleiro seguiu atrás, acompanhado da esposa, dos filhos, dos criados e até de vários hóspedes, todos desejosos de desvendar aquele mistério.
Lá chegando, padre Jorge girou a chave e abriu a porta com toda facilidade. Imaginem sua emoção ao ver que daquele armário — o tabernáculo por ele improvisado — saía uma luz celestial, enquanto músicas angelicais se faziam ouvir dentro do quarto.
Pondo-se de joelhos, adorou, comovido ao extremo, o Rei dos reis que quis manifestar-Se daquela maneira para atrair mais almas a Seu Sacratíssimo Coração Eucarístico.
Em seguida, explicou a todos o que se passara. Entre atônitos e maravilhados, foram-se ajoelhando um a um... Agora nenhum deles duvidava da Presença Real de Jesus na Eucaristia! O hoteleiro pediu para receber o Batismo, junto com toda a sua família.
O padre Jorge não podia abandonar essas almas que o próprio Senhor conquistara por meio de tão prodigioso fato! Passou, pois, alguns dias no hotel, ensinando-lhes as belezas e as verdades da Fé Católica. Durante esse tempo, a Sagrada Eucaristia permaneceu no seu precário tabernáculo, recebendo a adoração do hoteleiro, de sua família e de vários habitantes da região. Muitos destes também se converteram, de modo que o padre Jorge teve a alegria de ministrar o Batismo a uma pequena multidão de novos filhos da Santa Igreja.
Por fim, foi à casa do enfermo que, uma semana antes, havia solicitado sua assistência, e o encontrou já curado. O Senhor quis, Ele mesmo, operar prodígios em favor de sua messe!

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Um incêndio providencial

Edgard levantou-se muito contente naquela manhã. Seu novo barco de pesca, recém-saído do estaleiro, prometia-lhe um proveitoso dia de trabalho. E o tempo estava perfeito para essa estreia. O céu amanhecera azul, com algumas nuvens, é verdade, mas estas acabariam por dar-lhe um pouco de proteção contra o Sol. As redes estavam limpas e bem dobradas. O delicioso aroma do café da manhã, cuidadosamente preparado por Adelaide, sua esposa, convidava-o a se apressar.
Saiu de casa logo depois da refeição matinal. Enquanto se afastava rumo à praia, via Luísa e Marcelo, que davam adeus ao pai, ufano de seu barco novo. Esperava regressar com muitos peixes e fazer bom negócio na feira semanal do dia seguinte, à qual afluía gente de toda a vizinhança.
Fazendo o sinal-da-cruz e beijando sua medalha da Virgem do Carmo, da qual nunca se separava, Edgard levantou âncora e zarpou. Assobiava contente, enquanto manejava com destreza o timão de seu pesqueiro.
Não demorou a entrar numa zona bem conhecida pela quantidade de peixes. Mas... coisa estranha! Não encontrou ali nenhum de seus amigos pescadores. Por mais que procurasse, não via um barco sequer. Desconfiando de alguma surpresa desagradável, perscrutou o céu em todas as direções. O tempo continuava firme, com algumas nuvens espessas apenas. Não lhe pareceu haver sinal de chuva.
Lançou as redes. Curioso... Não havia peixes...
— Que estará acontecendo? — perguntou ele, falando sozinho.
O mar logo lhe deu uma resposta: as águas começaram a se mover com mais força, as nuvens espessas se avolumaram rapidamente, escurecendo o céu. Nunca ele vira uma tempestade armar-se tão de repente!
— É por isso que não havia peixes!... — disse para si mesmo.
Marujo destemido e experiente, Edgard não se alarmou. Acionou o motor e tentou dirigir o barco de volta à praia. Porém este não obedecia mais aos movimentos do timão, as ondas cada vez mais fortes o arrastavam em sentido contrário. Nesse momento, viu passar pouco além seu amigo Luís, pescador também, que avançava penosamente rumo à terra firme e lhe gritava:
— Edgard! Meia volta! A tempestade vai ser tremenda...
Quase não conseguia ouvir... O vento estava muito forte. Usou toda a sua perícia para tomar a direção certa, mas inutilmente: o barco vogava como se não tivesse leme e a correnteza o afastava mais e mais da terra firme. Uma chuva torrencial veio agravar ainda mais a situação.
Na iminência de uma tragédia inevitável, Edgard se encomendou à Virgem Santíssima. Nada mais podia fazer, senão rezar. Batido por uma grande onda, o barco girou violentamente, Edgard sentiu um forte golpe e caiu sem sentidos.
Quando voltou a si, encontrava-se numa praia. Estava meio tonto, latejava-lhe a cabeça, doía-lhe todo o corpo. Com muito custo pôs-se de pé, olhou ao redor e pareceu-lhe estar em alguma ilha desconhecida. De seu barco, viu apenas alguns destroços espalhados pela praia.
A quem pedir ajuda? Só lhe restava recorrer ao Céu. Tirou do pescoço sua medalha da Virgem do Carmo, ajoelhou-se e rezou fervorosamente.
Depois dessa oração, sentiu revigorarem-se suas forças. Caía a tarde. Recolheu o que restava do barco e fez uma cabaninha, cobrindo-a com folhas de palmeira, para proteger-se do frio durante a noite.
Na manhã seguinte, foi despertado pelo ruído de um bando de alegres gaivotas que pescavam. Sentia muita fome e não havia nada para comer. Resolveu explorar “sua” ilha à procura de frutas.
Andou, andou, andou... Não achou nada que levar à boca, mas reconheceu o local onde se encontrava: era uma ilha rochosa e desértica, que não estava na rota de nenhum barco pesqueiro, muito menos de algum navio.
O Sol estava mais alto no céu e a fome aumentava! Decidiu pescar. Encontrou entre os escombros do barco um pedaço de linha e outro de arame com os quais improvisou um anzol, e pronto... o restante era questão de habilidade. Com isso e alguns moluscos servindo de isca, não lhe foi difícil arrastar quatro peixes para a terra firme.
Após várias tentativas fracassadas, conseguiu fazer fogo junto à cabana, em um dos lados protegido do vento. Assou dois peixes grandes, temperados com o sal do mar. Pareceram-lhe deliciosos, melhores, até, que os que sua esposa, Adelaide, preparava tão bem.
Depois de saciada a fome, resolveu explorar o outro lado da ilha. Quem sabe se avistaria algum barco...
Caminhou muito, subiu e desceu rochedos, mas a certa altura sentiu um forte cheiro de queimado. Cheio de desconfiança pelo que estaria acontecendo, correu aflito de volta à praia. Lá chegando, viu a cabana toda queimada e uma coluna de fumaça que subia de um monte de folhas secas atingidas pelas chamas.
Edgard, que até então se mantivera forte, não aguentou mais. Sentou-se na areia, com a cabeça entre as mãos, e não conseguiu conter o desânimo e as lágrimas. Havia pedido ajuda aos Céus e Deus parecia tê-lo abandonado!
Por fim, cansado de toda a tensão daquele dia, adormeceu ali mesmo na praia, sob o Sol inclemente da tarde. Quanto tempo dormiu, ninguém sabe. Foi acordado por alguém que lhe tocava o braço e o chamava:
— Edgard!
Era Luís, seu amigo pescador. Levantando-se de um salto, Edgard o abraçou e disse:
— Luís! Como chegou até aqui? Esta ilha não é rota de barcos...
— Depois que passou a tempestade, lancei-me de novo ao mar, decidido a encontrá-lo. Procurei sem resultado por todos os nossos rincões conhecidos, e já estava voltando, pois a tarde está chegando ao fim e no escuro seria impossível prosseguir a busca. Inesperadamente, vi uma coluninha de fumaça subindo por detrás desses rochedos. Deixei o barco ancorado e vim a nado, pois não é possível navegar por entre essas pedras. Vamos, homem, dentro em pouco será noite, e sua família o espera!
No percurso de volta a casa, Edgard meditava com profunda gratidão sobre a maneira pela qual a Virgem Santíssima levara até Deus suas preces: aquele incêndio, que lhe parecera a desgraça completa, havia salvado sua vida!
* * *
Às vezes, Deus age assim conosco, parecendo ter Se esquecido de nós. Mas Ele permite a aparente derrota, ou mesmo a desgraça, para daí tirar um bem maior. Portanto, ainda que não entendamos, confiemos, pois Ele nunca nos abandona! Há males que vêm para bem!